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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Educação indígena

Educação indígena
As políticas públicas para Educação Escolar Indígena foram formuladas a partir da Constituição Federal de 1988, que estabeleceu uma nova postura de reconhecimento e valorização dos povos indígenas por parte do Estado brasileiro.
João Bittar/Ministério da EducaçãoCentro de Educação e Cultura Indígena mescla conteúdo atual e tradições milenaresAmpliar
  • Centro de Educação e Cultura Indígena mescla conteúdo atual e tradições milenares
Em 1999, o Conselho Nacional de Educação criou as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena, que foi elaborada com a preocupação de manter a diversidade indígena.
Ao implantar essas políticas, os Sistemas de Ensino levaram em conta princípios, idéias e práticas educativas discutidos entre o movimento social indígena e indigenista, emergente no país em meados da década de 1970.
Desse importante movimento surgiu o conceito de educação escolar indígena como direito, caracterizada pela afirmação das identidades étnicas, recuperação das memórias históricas, valorização das línguas e conhecimentos dos povos indígenas.
Esses marcos (conceitos) defendidos pelo movimento social orientam o planejamento das políticas públicas. Muitos avanços ocorreram a partir dessas mudanças, mas os direitos educacionais dos povos indígenas ainda encontram obstáculos na organização dos Sistemas de Ensino no Brasil.
Além da melhora da infraestrutura de escolas em aldeias indígenas, existe o fornecimento de merenda diferenciada, de acordo com os padrões alimentares e tradições desses povos, criação de material didático específico e sistema de cotas em universidades.
Os povos indígenas, por sua vez, reivindicam a oferta da educação básica em seus territórios, para que a escola forme crianças, jovens e adultos comprometidos com os projetos comunitários de melhoria das condições de vida, com afirmação das identidades étnicas.
Fonte:Funai

Alfabetização Indígena

Comemoramos em 19 de abril o Dia do Índio. Certos de que é essencial refletirmos e contribuirmos com sua cultura e bem estar e que não poderemos ignorar essa importante parcela da população brasileira apresentamos um projeto especial.
Objetivos:
  • Escola IndigenaEnfatizar o papel da linguagem, de conteúdos e formas culturais entendidas como “próprias”, além do incentivo à expressão e comunicação entre culturas;
  • Promover a auto-estima, a valorização das identidades étnicas, historicamente muito afetadas nos grupos indígenas de alto ou baixo grau de contato com a sociedade envolvente;
  • Desenvolver confiança e o prazer dos atos de aprendizagem e ensino, através de relações didáticas afetuosas entre aluno e professor;
  • Oportunizar para que os alunos aprendam a desenhar, a representar suas idéias através de novas modalidades de linguagem, sendo estimulados a se expressar;
  • Oferecer condições para que os alunos possam avançar na construção do sistema da escrita e da língua que se escreve;
  • Valorizar o contexto histórico da comunidade.
A alfabetização indígena deve ser compreendida como um dos instrumentos que os povos possam utilizar para compartilhar com o restante da sociedade nacional todo o valor de sua cultura, bem como para que possam participar efetivamente da vida cultural brasileira, mostrando toda a sua riqueza e contribuição para esse país.
Justificativa:
A educação escolar praticada no Brasil, não só com os índios, mas com qualquer grupo de menor poder e prestígio, tinha – e ainda tem – um amplo potencial de domesticação e subserviência que vai desde a submissão ao saber até o poder do professor.
Esse tipo de educação, entre outras práticas sociais de igual violência simbólica, provocou a rejeição e a resistência dos índios e levou à perda de línguas e de muitos aspectos importantes da cultura.
A educação indígena sempre refletiu de forma coerente o macroprojeto nacional, que deixa clara a impossibilidade do plural, já que é baseado na unificação das diferenças pela hegemonia e no silenciamento da diversidade na unidade. Como resultado, temos a perda da memória humana e coletiva de muitas sociedades indígenas. A estimativa é que, no Brasil, cerca de 1.000 línguas indígenas desapareceram em quase cinco séculos. Mostramos com isso nossa incapacidade de construir uma sociedade mais ética e respeitosa. Basta lembrar dos atos de violência coletiva e individual cometidos contra índios, negros e outros grupos marginalizados da sociedade brasileira ao longo dos anos.
A proposta do presente projeto é considerar as construções pessoais dos alunos, tratando as crianças como indivíduos, valorizando sua história e sua cultura.
As crianças se alfabetizam em suas comunidades, através de experiências diárias as quais podem ser enriquecidas através de atividades lúdicas previamente planejadas pelo educador que proporcionará o exercício das trocas simbólicas entre as crianças no cotidiano como forma de consciência das ações realizadas, assegurando a elas um saber com significado real. Todos podem aprender basta ter as oportunidades para tal.
Aprender é uma tarefa que ninguém pode realizar pelo outro, mas ao mesmo tempo é a construção coletiva, pois considera as experiências anteriores dos estudantes e precisa de continuidade para que todo o seu potencial desabroche e se multiplique.
Para isso há a necessidade de utilizarmos metodologias que facilitem essa aprendizagem, tais como: trabalhar objetos concretos; confeccionar crachás que identifiquem os alunos; apresentar palavras do uso cotidiano; trabalhar com calendários; trabalhar com bingos de letras, caça-palavras, loto-leitura, músicas, parlendas, trava-língua, teatro, jogos, brincadeiras e entre outras; trabalho coma linguagem oral, através de observações de gravuras; interação com a escrita por meio da convivência com livros, revistas, jornais, entre outras; leitura de imagens e rótulos de uso cotidiano; trabalhar o alfabeto móvel.
Nessa perspectiva, também há necessidade de desenvolver uma proposta para o processo de alfabetização onde a escrita, mais que um instrumento técnico e uma atividade mecânica, seja um momento de interação e interlocução entre todos os envolvidos no processo, valorizando as particularidades e as aquisições e saberes de cada alfabetizando na construção de sua linguagem escrita, pois, no movimento das interações sociais e nos momentos das interlocuções, a linguagem se cria, se transforma, se constrói, como conhecimento humano.
Para a alfabetização ter sentido, ser um processo interativo é importante trabalhar com o contexto da criança, com histórias e com intervenções das próprias crianças que podem aglutinar, contrair, "engolir" palavras, desde que essas palavras ou histórias façam algum sentido para elas.
Para FREIRE (1976),

“aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras, mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade”  (p.21).

Aprender é uma tarefa complexa que envolve o sujeito como um todo e de forma específica. Conhecer demanda esforço, investimento e objetivos direcionados à aprendizagem. Nessa perspectiva, toda a aprendizagem é um trabalho dinâmico em que o aprendiz está sempre se movimentando, construindo e reconstruindo seu universo pessoal e grupal, exercendo um ato de compreender o mundo.
As crianças diferem entre si. Por isto, não se pode esperar que todas se desenvolvam ao mesmo tempo e do mesmo modo na aquisição de habilidades de leitura e escrita. Portanto, serão organizadas atividades diferentes, em épocas e situações diversas, procurando atender às necessidades de todas as crianças.
Ao permitir a interação entre os indivíduos, a leitura não pode ser compreendida apenas como a decodificação de símbolos gráficos, mas sim como a leitura do mundo, que deve ser constituída de sujeitos capazes de compreender o mundo e nele atuar como cidadãos.

Há que se encarar o leitor como atribuidor de significados e, nessa atribuição, levar-se em conta a interferência da bagagem cultural de cada aluno.
Vale ressaltar o papel do professor no desempenho de seus múltiplos papéis como encorajador de seus alunos, levando-os a ler com independência e senso crítico, ajudando-os ao mesmo tempo, a descobrir as motivações mais íntimas para ler: o porquê da leitura. E é esta motivação que dará sentido ao ato de ler e desenvolverá no aluno uma atitude positiva em relação à leitura e a facilidade que isso proporcionará para as produções de texto e estas atitudes extrapolarão o muro da escola e o acompanhará por toda a vida.
Valorizar o meio em que o aluno está inserido e também considerar os avanços pelos quais o mundo passa, tem constituído ponte para pensar e repensar o ato de ensinar e mediar a aprendizagem.
Qualquer grupo social humano elabora e constitui um universo completo de conhecimentos integrados, com fortes ligações com o meio em que vive e se desenvolve. Entendendo cultura como o conjunto de respostas que uma determinada sociedade humana dá as experiências por ela vivida e aos desafios que encontra ao longo do tempo, percebe-se o quanto as diferentes culturas são dinâmicas e estão em continuo processo de transformação.
O Brasil possui uma imensa diversidade étnica e lingüística, estando entre as maiores do mundo.
É importante frisar que as variadas culturas das sociedades indígenas modificam-se constantemente e reelaboram-se com o passar do tempo, com a cultura de qualquer outra sociedade humana.
No que diz respeito a identidade étnica, as mudanças ocorridas em varias sociedades indígenas, como o fato de falarem português, vestirem roupas iguais a dos outros membros da sociedade nacional com que estão em contato, utilizarem moderna tecnologia (como câmeras de vídeo, maquinas fotográficas e aparelhos de fax ), não fazem com que percam sua identidade éticas deixem de ser indígenas.
A diversidade cultural pode ser enfocada tanto sob o ponto de vista das diferenças existentes entre as sociedades indígenas e não-indigenas, quanto sob o ponto de vista das diferenças entre as muitas sociedades indígenas que vivem no Brasil. Mas está sempre relacionada ao contato entre realidades socioculturais diferentes e a necessidade de convívio entre elas, especialmente num país pluriético, como é o caso do Brasil.
É necessário reconhecer e valorizar a identidade étnica especifica da sociedade indígena em particular, compreender suas línguas e suas formas tradicionais de organização social, de ocupação da terra e de uso dos recursos naturais. Isto significa o respeito pelos direitos coletivos e a busca do convívio pacifico, por meio de um intercambio cultural, com as diferentes etnias.
De acordo com Grizzi e Silva (1981 - p. 21):
“Muitos índios que freqüentaram a escola “nacional”, com o ensino em português, são aparentemente alfabetizados: copiam textos, escrevem algumas palavras, mas não são capazes de ler, nem de se expressar através da escrita; isso acontece em grande parte pelo fato de não dominarem o português. Alfabetizar não é ensinar a escrita de umas poucas palavras do português conhecido. Só se pode falar que uma pessoa esta alfabetizada quando ela é capaz de se expressar através do código escrito. E o processo de alfabetização será muito mais eficaz quando feito na língua materna e não numa segunda língua, ou uma língua desconhecida.”
A alfabetização é um processo de aprendizagem conceitual onde o sujeito emprega a sua lógica sobre a língua escrita para poder aprendê-la e entender o seu significado.

FERREIRO (1986) ainda afirma que: “Ler não é decifrar, escrever não é copiar”. A escrita da criança não resulta de uma simples cópia de um modelo, mas é um processo de construção, onde reinventam a escrita, no sentido de compreender seus processos de construção e suas normas de produção.
Valorizando e respeitando o conhecimento que o educando já possui, o professor assume o papel de mediador a nortear o educando a percorrer em caminho da sua própria construção,organizando um ambiente rico em elementos de escrita utilizando diferentes materiais,não apenas escolares, mas de uso social enriquecendo a cultura o contexto da escrita que o educando já tem acesso.
Metodologia/Desenvolvimento:
  • Partir dos conhecimentos prévios dos alunos, usando a escrita para registra um pouco da sua história, a literatura, as crenças religiosas, os mitos, as receitas, enfim, o conhecimento do povo.
  • Não limitar o processo de alfabetização entre quatro paredes. O aprendizado deve ocorrer num espaço formal ou informal, dentro da comunidade, onde muitas das vezes o educador vira educando, realizar o processo em movimento aproveitando as riquezas naturais e os detalhes da vida de cada um.
  • Com base no método de Paulo Freire a partir da imagem e da palavra do professor iniciar a pedagogia da pergunta. Antes de qualquer fonema alfabetizador proporcionar duas leituras do mundo: o mundo da natureza e o mundo da cultura.
  • Sondar as dúvidas, interesses e necessidades dos alunos. Trabalhar no sentido de construção, de troca de conhecimentos e não algo meramente pronto para ser aprendido.
  • Trabalhar com literatura infantil através de contação de histórias, vivenciando brincadeiras referentes a elas, levando informações sobre um outro modo de viver e as influências da cultura ocidental, assim como propiciando para que contem suas próprias histórias.
  • Explorar músicas e artes plásticas e através destas incentivar o aluno a praticar socialmente a leitura e a escrita, de forma criativa, descobridora, crítica, autônoma e ativa, já que a linguagem é interação e, como tal, requer a participação transformadora dos sujeitos sociais que a utilizam.
  • Planejar suas ações visando ensinar para que serve a linguagem escrita e como o aluno poderá utilizá-la.
  • Observar a ação das crianças, acolher ou problematizar suas produções, intervindo sempre que achar que pode fazer a reflexão dos alunos sobre a escrita avançar.
  • Relacionar o processo de alfabetização com o lúdico, na forma de jogos e brincadeiras, que despertam o interesse e arrebatam a atenção das crianças, tornando este processo recheado de significado.
  • Fazer com que a criança se reconheça como um sujeito importante que possui um nome que é só seu, realizando atividades e jogos variados envolvendo os nomes das crianças propiciando, assim a aprendizagem da escrita.
Avaliação:
Avaliar o desempenho global dos alunos continuamente a partir de observações, das atividades nas aulas, da participação na construção de novos conceitos, levantamento de hipóteses e manipulação dos materiais;
Observar as atitudes de responsabilidade, cooperação e organização dos alunos.

"Alfabetizar exige amor, responsabilidade, comprometimento, sensibilidade e acima de tudo, bom senso”.
(Paulo Freire)

“O direito à saúde significa, entre outras coisas, o direito de todo indivíduo a uma atenção médica atualizada de acordo com os avanços científicos e técnicos dessa área profissional. O direito à alfabetização não pode significar menos do que isso.”
(Emília Ferreiro)

Referências:

  • FERREIRO, E. Reflexões sobre  Alfabetização. Trad. H. Gonzales et al. 2 ed. São Paulo,: Cortez/Autores Associados, 1986.
  • FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler (em três artigos que se completam). Prefácio de Antonio Joaquim Severino. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1982a. 96 p.
  • FREIRE, Paulo. Conscientização teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979. 102 p.
  • FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
  • GRIZZI, D. C. S.; SILVA, A. L. da. A Filosofia e a Pedagogia da Educação Indígena: um resumo dos debates. In: COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO. A Questão da Educação Indígena. São Paulo: Brasiliense, 1981.
Para saber mais sugerimos os documentários da TV Escola, disponíveis na página:
http://midiaseducacao-videos.blogspot.com/search/label/Cultura%20ind%C3%ADgenahttp://www.projetospedagogicosdinamicos.com/alfabetizacao_indigena.html