Mostrando postagens com marcador Grandes Pensadores.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Grandes Pensadores.. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 21 de maio de 2013
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Daniel Munduruku
Daniel Munduruku é filósofo, licenciado em História e Psicologia e
doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Nascido no Pará e
enfrentando todos os preconceitos de um indígena nas décadas de 1970 e
80, passou de um garoto alfabetizado em uma escola missionária, a um dos
principais escritores da literatura indígena brasileira, com 42 livros
publicados.
Nesta parte da entrevista, concedida na Estância Ecológica Colina da
Serra, em Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo,
Munduruku fala sobre literatura e cultura indígena.
Na segunda parte da entrevista, Daniel Munduruku fala sobre o acesso dos povos indígenas ao Ensino Superior. Munduruku é filósofo, licenciado em História e Psicologia e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Nascido no Pará e enfrentando todos os preconceitos de um indígena nas décadas de 1970 e 80, passou de um garoto alfabetizado em uma escola missionária, a um dos principais escritores da literatura indígena brasileira, com 42 livros publicados. Para saber mais sobre os projetos de Daniel Munduruku basta acessa
Na última parte da entrevista, Daniel Munduruku fala sobre o que os professores não devem fazer no Dia do Índio. Munduruku é filósofo, licenciado em História e Psicologia e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Nascido no Pará e enfrentando todos os preconceitos de um indígena nas décadas de 1970 e 80, passou de um garoto alfabetizado em uma escola missionária, a um dos principais escritores da literatura indígena brasileira, com 42 livros publicados. Para saber mais sobre os projetos de Daniel Munduruku basta acessar
http://danielmunduruku.blogspot.com.br
http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/modalidades/entrevista-daniel-munduruku-indio-parte-1-625103.shtml
Entrevista: Daniel Munduruku - Parte 1
Na segunda parte da entrevista, Daniel Munduruku fala sobre o acesso dos povos indígenas ao Ensino Superior. Munduruku é filósofo, licenciado em História e Psicologia e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Nascido no Pará e enfrentando todos os preconceitos de um indígena nas décadas de 1970 e 80, passou de um garoto alfabetizado em uma escola missionária, a um dos principais escritores da literatura indígena brasileira, com 42 livros publicados. Para saber mais sobre os projetos de Daniel Munduruku basta acessa
Na última parte da entrevista, Daniel Munduruku fala sobre o que os professores não devem fazer no Dia do Índio. Munduruku é filósofo, licenciado em História e Psicologia e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo. Nascido no Pará e enfrentando todos os preconceitos de um indígena nas décadas de 1970 e 80, passou de um garoto alfabetizado em uma escola missionária, a um dos principais escritores da literatura indígena brasileira, com 42 livros publicados. Para saber mais sobre os projetos de Daniel Munduruku basta acessar
http://danielmunduruku.blogspot.com.br
http://revistaescola.abril.com.br/politicas-publicas/modalidades/entrevista-daniel-munduruku-indio-parte-1-625103.shtml
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Célestin Freinet
O mestre do trabalho e do bom senso
O educador francês desenvolveu atividades hoje comuns, como as aulas-passeio e o jornal de classe, e criou um projeto de escola popular, moderna e democrática
Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)
Célestin Freinet
Freinet se inscreve, historicamente, entre os educadores identificados com a corrente da Escola Nova, que, nas primeiras décadas do século 20, se insurgiu contra o ensino
tradicionalista, centrado no professor e na cultura enciclopédica, propondo em seu lugar uma educação ativa em torno do aluno. O pedagogo francês somou ao ideário dos escolanovistas uma visão marxista e popular tanto da organização da rede de ensino como do aprendizado em si. "Freinet sempre acreditou que é preciso transformar a escola por dentro, pois é exatamente ali que se manifestam as contradições sociais", diz Rosa Maria Whitaker Sampaio, coordenadora do pólo São Paulo da Federação Internacional dos Movimentos da Escola Moderna (Fimem), que congrega seguidores de Freinet.
Na teoria do educador francês, o trabalho e a cooperação vêm em primeiro plano, a ponto de ele defender, em contraste com outros pedagogos, incluindo os da Escola Nova, que "não é o jogo que é natural da criança, mas sim o trabalho". Seu objetivo declarado é criar uma "escola do povo".
Biografia
Célestin Freinet nasceu em 1896 em Gars, povoado na região da Provença, sul da França. Foi pastor de rebanhos antes de começar a cursar o magistério. Lutou na Primeira Guerra Mundial em 1914, quando os gases tóxicos do campo de batalha afetaram seus pulmões para o resto da vida. Em 1920, começou a lecionar na aldeia de Bar-sur-Loup, onde pôs em prática alguns de seus principais experimentos, como a aula-passeio e o livro da vida. Em 1925, filiou-se ao Partido Comunista Francês. Dois anos depois, fundou a Cooperativa do Ensino Leigo, para desenvolvimento e intercâmbio de novos instrumentos pedagógicos. Em 1928, já casado com Élise Freinet (que se tornaria sua parceira e divulgadora), mudou-se para Saint-Paul de Vence, iniciando intensa atividade. Cinco anos depois, foi exonerado do cargo de professor. Em 1935, o casal Freinet construiu uma escola própria em Vence. Durante a Segunda Guerra, o educador foi preso e adoeceu num campo de concentração alemão. Libertado depois de um ano, aderiu à resistência francesa ao nazismo. Recobrada a paz, Freinet reorganizou a escola e a cooperativa em Vence. Em 1956, liderou a vitoriosa campanha 25 Alunos por Classe. No ano seguinte, os seguidores de Freinet fundaram a Federação Internacional dos Movimentos da Escola Moderna (Fimem), que hoje reúne educadores de cerca de 40 países. Freinet morreu em 1966.
Coerência num tempo de extremos
Crianças na Paris ocupada, em
1940, lêem instruções sobre o uso
de máscaras de gás: tempo de
perseguições ideológicas.
Cooperação sim, manuais não.
Com a intenção de propor uma reforma geral no ensino francês, Freinet reuniu suas experiências didáticas num sistema que denominou Escola Moderna. Entre as principais "técnicas Freinet" estão a correspondência entre escolas (para que os alunos possam não apenas escrever, mas ser lidos), os jornais de classe (mural, falado e impresso), o texto livre (nascido do estímulo para que os alunos registrem por escrito suas idéias, vivências e histórias), a cooperativa escolar, o contato freqüente com os pais (Freinet defendia que a escola deveria ser extensão da família) e os planos de trabalho. O pedagogo era contrário ao uso de manuais em sala de aula, sobretudo as cartilhas, por considerá-los genéricos e alheios às necessidades de expressão das crianças. Defendia que os alunos fossem em busca do conhecimento de que necessitassem em bibliotecas (que deveriam existir na própria escola) e que confeccionassem fichários de consulta e de autocorreção (para exercícios de Matemática, por exemplo). Para Freinet, todo conhecimento é fruto do que chamou de tateamento experimental - a atividade de formular hipóteses e testar sua validade - e cabe à escola proporcionar essa possibilidade a toda criança.
Importância do êxito
Não foi por acaso que Freinet criou uma pedagogia do trabalho. Para ele, a atividade é o que orienta a prática escolar e o objetivo final da educação é formar cidadãos para o trabalho livre e criativo, capaz de dominar e transformar o meio e emancipar quem o exerce. Um dos deveres do professor, segundo Freinet, é criar uma atmosfera laboriosa na escola, de modo a estimular as crianças a fazer experiências, procurar respostas para suas necessidades e inquietações, ajudando e sendo ajudadas por seus colegas e buscando no professor alguém que organize o trabalho.
Outra função primordial do professor, segundo Freinet, é colaborar ao máximo para o êxito de todos os alunos. Diferentemente da maioria dos pedagogos modernos, o educador francês não via valor didático no erro. Ele acreditava que o fracasso desequilibra e desmotiva o aluno, por isso o professor deve ajudá-lo a superar o erro. "Freinet descobriu que a forma mais profunda de aprendizado é o envolvimento afetivo", diz Rosa Sampaio.
Ao lado da pedagogia do trabalho e da pedagogia do êxito, Freinet propôs, finalmente, uma pedagogia do bom senso, pela qual a aprendizagem resulta de uma relação dialética entre ação e pensamento, ou teoria e prática. O professor se pauta por uma atitude orientada tanto pela psicologia quanto pela pedagogia - assim, o histórico pessoal do aluno interage com os conhecimentos novos e essa relação constrói seu futuro na sociedade.
Livre expressão
Esse aspecto muito particular que atribuía ao aprendizado de cada criança é a razão de Freinet não ter criado um método pedagógico rígido, nem uma teoria propriamente científica. Mesmo assim, seu entendimento sobre os mecanismos do aprendizado mereceu elogios do biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), cuja teoria do conhecimento se baseou em minuciosa observação científica.
Freinet dedicou a vida a elaborar técnicas de ensino que funcionam como canais da livre expressão e da atividade cooperativa, com o objetivo de criar uma nova educação. Lançou-se a essa tarefa por considerar a escola de seu tempo uma instituição alienada da vida e da família, feita de dogmas e de acumulação estéril de informação - e, além disso, em geral a serviço apenas das elites. "Freinet colocou professor e alunos no mesmo nível de igualdade e camaradagem", diz Rosa Sampaio. O educador não se opunha, porém, às aulas teóricas.
A primeira das novas técnicas didáticas desenvolvidas por Freinet foi a aula-passeio, que nasceu justamente da observação de que as crianças para quem lecionava, que se comportavam tão vividamente quando ao ar livre, pareciam desinteressadas dentro da escola. Uma segunda criação célebre, a imprensa na escola, respondeu à necessidade de eliminar a distância entre alunos e professores e de trazer para a classe a vida "lá fora". "É necessário fazer nossos filhos viver em república desde a escola", escreveu Freinet.
A pedagogia de Freinet se fundamenta em quatro eixos: a cooperação (para construir o conhecimento comunitariamente), a comunicação (para formalizá-lo, transmiti-lo e divulgá-lo), a documentação, com o chamado livro da vida (para registro diário dos fatos históricos), e a afetividade (como vínculo entre as pessoas e delas com o conhecimento).
Para pensar
A utilização de técnicas desenvolvidas por Freinet, em particular as aulas-passeio e os cantinhos temáticos na sala de aula, não significam por si só que o professor adotou uma prática freinetiana. É preciso lembrar que o educador francês criou tais recursos para atingir um objetivo maior, que é o despertar, nas crianças, de uma consciência de seu meio, incluindo os aspectos sociais, e de sua história. Quando você promove atividades em sua escola, costuma ter consciência de como elas se inserem num plano pedagógico mais amplo?
Quer saber mais?
Célestin Freinet - Uma Pedagogia de Atividade e Cooperação, Marisa del Cioppo Elias, 112 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2246-5552, 20 reais
Freinet - Evolução Histórica e Atualidades, Rosa Maria Whitaker Ferreira Sampaio, 240 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-161-700, 49,90 reais
Para uma Escola do Povo, Célestin Freinet, 144 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677, 29,30 reais
Pedagogia do Bom Senso, Célestin Freinet, 164 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677 , 32,60 reais
Freinet - Evolução Histórica e Atualidades, Rosa Maria Whitaker Ferreira Sampaio, 240 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-161-700, 49,90 reais
Para uma Escola do Povo, Célestin Freinet, 144 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677, 29,30 reais
Pedagogia do Bom Senso, Célestin Freinet, 164 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677 , 32,60 reais
terça-feira, 16 de abril de 2013
Marilena Chaui
Uma das grandes filósofas e pensadoras da Filosofia Brasileira, ex-Secretária Municipal de Cultura de São Paulo, de 1989 a 1992, Marilena de Souza Chaui nasceu na cidade de São Paulo, no dia 4 de setembro de 1941. Ela é filha do jornalista Nicolau Chauí e da professora Laura de Souza Chauí.
Marilena iniciou seus estudos no Grupo Escolar de Pindorama, interior paulista, onde realizou o curso primário. Ela deu sequência à sua formação secundária no Colégio Nossa Senhora do Calvário, na cidade de Catanduva, concluindo-o no Colégio Estadual Presidente Roosevelt, na capital.
A filósofa ingressou no curso de filosofia da Universidade de São Paulo em 1960, graduando-se em 1965. Ela defendeu sua dissertação de mestrado, intitulada Merleau-Ponty e a crítica do humanismo, em 1967, orientada pelo Professor Doutor Bento Prado de Almeida Ferraz Júnior. Neste mesmo ano ela deu início ao seu doutorado na França, defendendo tese sobre o filósofo Espinosa, em 1971, também na USP, sob a orientação da Doutora Gilda Rocha de Mello e Souza.
Sua tese de livre-docência foi igualmente defendida na Universidade de São Paulo, em 1977, com o título A nervura do real: Espinosa e a questão da liberdade. Neste trabalho ela aborda temas como imanência; liberdade; necessidade; servidão; beatitude e paixão.
Marilena prestou concurso em 1987 e conquistou o cargo de professora titular de filosofia. Ela ministra aulas no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, tendo se especializado em História da Filosofia Moderna e em Filosofia Política. Atualmente Chauí é historiadora de filosofia brasileira, Professora de Filosofia Política e História da Filosofia Moderna da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – a FFLCH-USP.
Respeitada não apenas por sua obra acadêmica, mas também pela intensa e frequente ação no âmbito intelectual e político brasileiro, ela é também integrante do Partido dos Trabalhadores, instituição que ela ajudou a criar, membro do Diretório Estadual e, depois, do Diretório Municipal do PT. Sua atuação à frente da Secretaria Municipal de Cultura ocorreu na gestão da ex-Prefeita Luiza Erundina. Ela participa igualmente da Comissão Teotônio Vilela.
Sua produção acadêmica conquistou grande êxito, mas alguns de seus trabalhos, escritos em estilo didático e singelo, de fácil compreensão, propiciam seu sucesso também entre as pessoas leigas, desvinculadas do universo acadêmico. Seu livro O que é Ideologia, publicado pela Editora Brasiliense, na Coleção Primeiros Passos, foi recorde de vendas, alcançando a cifra dos cem mil exemplares vendidos.
Marilena é Presidente da Associação Nacional de Estudos Filosóficos do século XVII, Doutora Honoris Causa pela Universidade de Paris VIII e Doutora Honoris Causa pela Universidad Nacional de Córdoba, da Argentina. Atualmente ela desenvolve uma pesquisa sobre A elaboração espinosana de uma ciência dos afetos - ruptura com a tradição da contingência e afirmação da necessidade, dentro da Faculdade de Filosofia da USP. Em sua obra é possível encontrar temas como ideologia, cultura, universidade pública, entre outros. Destacam-se os livros Repressão Sexual, Da Realidade sem Mistérios ao Mistério do Mundo, Introdução à História da Filosofia, Convite à Filosofia, A Nervura do Real, Simulacro e poder, entre outros. Ela é casada com o historiador Michael Hall.
Pensamentos:
Apresentamos o pensamento da filósofa Marilena Chauí sobre a reprodução e manutenção da sociedade:“Como sabemos, a ideologia não é apenas a representação imaginária do real para servir ao exercício da dominação em uma sociedade fundada na luta de classes, como não é apenas a inversão imaginária do processo histórico na qual as idéias ocupariam o lugar dos agentes históricos reais. A ideologia, forma específica do imaginário social moderno, é a maneira necessária pela qual os agentes sociais representam para si mesmos o aparecer social, econômico e político, de tal sorte que essa aparência (que não devemos simplesmente tomar como sinônimo de ilusão ou falsidade), por ser o modo imediato e abstrato de manifestação do processo histórico, é o ocultamento ou a dissimulação do real. Fundamentalmente, a ideologia é um corpo sistemático de representações e de normas que nos “ensina” a conhecer e a agir”. (CHAUÍ, 1997: 3-4).
Portanto, as nossas escolhas estão ligadas à ideologia que de acordo com os interesses daqueles que dominam a sociedade, vai organizando o mundo à nossa volta.
Ao observar cenas na televisão que mostram as pessoas andando na rua indo para o trabalho em ônibus lotados, em caminhões precários, as filas e os grupos que se formam à volta de uma oferta de emprego ou de vagas na colheita de algum produto, você já parou para pensar porque isto ocorre? O que faz com que as pessoas todos os dias, realizem esta busca cotidiana, incessantemente? Por que as pessoas vão repetindo estas ações cotidianas? Há um conformismo nesta repetição? O que pensar sobre isto nos indica?
Voltando ao ponto de partida do conceito vamos observar que ao reafirmarmos a necessidade de fazermos “aquilo que se espera de nós” vamos reproduzindo a sociedade. Esta reprodução está justamente no que foi descrito acima quando as pessoas aceitam a situação sem questioná- la. Mas, a responsabilidade deste conformismo não está nas pessoas isoladamente, nos indivíduos. Está nas idéias contidas na ideologia, que ao serem disseminadas na sociedade vão garantindo que a aceitemos nos moldes em que ela está organizada. Fazemos isto porque recebemos um conjunto de informações que vão atuar sobre a nossa forma de pensar sobre o mundo, as pessoas e as coisas. Faça a tarefa a seguir e analise sobre o papel da ideologia e a ação dos seres humanos.
ATIVIDADE
Descreva uma situação ou uma cena (em que) você se conformou com as limitações impostas – no trabalho, na escola ou, na família ou na comunidade – e uma outra situação em que você não se conformou e quebrou as “regras”. Reflita sobre isso, concluindo sobre o que é mais fácil: é conformar ou se rebelar? Por quê?
Após as conclusões da proposta de trabalho acima leia novamente o que escreveu Marilena Chauí sobre a força da ideologia sobre as pessoas, tendo em vista a pressão que ela exerce sobre o cotidiano:
“A sistematicidade e a coerência ideológicas nascem de uma determinação muito precisa: o discurso ideológico é aquele que pretende coincidir com as coisas, anular a diferença entre o pensar, o dizer e o ser e, destarte, engendrar uma lógica da identificação que unifique pensamento, linguagem e realidade para, através dessa lógica, obter a identificação de todos os sujeitos sociais com uma imagem particular universalizada, isto é, a imagem da classe dominante. Universalizando o particular pelo apagamento das diferenças e contradições, a ideologia ganha coerência e força porque é um discurso lacunar que não pode ser preenchido. Em outras palavras, a coerência ideológica não é obtida malgrado as lacunas, mas, pelo contrário, graças a elas. Porque jamais poderá dizer tudo até o fim, a ideologia é aquele discurso no qual os termos ausentes garantem a suposta veracidade daquilo que está explicitamente afirmado”. (CHAUÍ, 1997: 3-4).
Essas idéias universalizantes são dúbias e passam a concepção, por exemplo, de que todos estão em condições iguais de competir, o que é garantido pela Constituição Federal de 1988, mas ao mesmo tempo demonstra que entre estes existem os mais “capazes” que vão ter acesso ao emprego, a vaga na universidade, a ser campeão na gincana da escola. Esse pensamento, ao dar primazia ao vencedor, cria um preconceito, pois desconsidera aqueles que ficaram em segundo lugar, em terceiro, em quarto, em último como se essas pessoas não merecessem respeito. Não percebemos esta dubiedade quando incentivamos e assistimos às competições entre as pessoas, entendendo que o resultado que elas apresentam é a verdade absoluta.
E esta verdade passa a ser uma idéia universal de que os primeiros são os mais capazes, o que incentiva um comportamento competitivo entre as pessoas. Ao fazer isso, a ideologia cria uma ação preconceituosa e individualista, pois muitos acham que é correto ser assim, pois “eu fui o melhor”. Nada mais ilusório, já que há desigualdades materiais (de classe) e de outros tipos também, como as de gênero e etnia, que estão fora das “escolhas” dos indivíduos, e que acabam tornando desiguais também, as oportunidades sociais das pessoas.
O individualismo é uma ideologia que surge com o pensamento liberal do século XVII, que tem John Locke como principal representante. Essa concepção, naquela época, guindava o ser humano a uma esfera de atuação que lhe era negada na Sociedade Feudal (século V a XV), com a dominação da nobreza. Com a ascensão da burguesia (século XVIII) e o seu controle do Estado e a disseminação e normatização das suas idéias na sociedade, a concepção de Indivíduo como aquele capaz de agir, deixa de ser inovadora passa a cristalizar no nosso cotidiano, via os meios de comunicação, a idéia de que o melhor, é o mais capaz e é aquele que deve ter acesso aos bens e seviços da sociedade. Isso significa desenvolver um individualismo, que nos séculos que se seguiram (XVIII ao XXI) aumentou com o consumo, pois somente alguns podem consumir mais que os outros.
Muitas pessoas acham que isto está correto pois foi ele quem venceu – a disputa pelo emprego, pela promoção, pela vaga na faculdade. Vencer em uma sociedade de desiguais significa reprodução da sociedade, pois se alguém venceu outros ficaram de fora. E se ficaram de fora, permanece a desigualdade. Questionar essa realidade é importante para percebermos como veremos adiante, neste texto, a quebra dos padrões individualistas e conformistas vigentes.
Primeiro precisamos entender o processo de internalização que impulsiona a ação cotidiana de ir ao trabalho, à escola, ao médico, aos compromissos sociais, para depois entendermos o processo de rompimento com a ideologia.
Baixar aqui Convite à Filosofia - Marilena Chaui
CONVITE À FILOSOFIA- O CONHECIMENTO
FONTES:
http://search.4shared.com/q/1/Convite+%C3%A0+Filosofia+-+Marilena+Chaui
http://cristianofilosofia.no.comunidades.net/index.php?pagina=1328560250
http://www.infoescola.com/biografias/marilena-chaui/
http://www.ahistoria.com.br/biografia-de-marilena-chaui/
Lev Vygotsky
Lev Vygotsky, o teórico do ensino como processo social
A obra do psicólogo ressalta o papel da escola no
desenvolvimento mental das crianças e é uma das mais estudadas pela
pedagogia contemporânea
Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)
Lev Vygotsky
A parte mais conhecida da extensa obra produzida por Vygotsky em seu curto tempo de vida converge para o tema da criação da cultura. Aos educadores interessa em particular os estudos sobre desenvolvimento intelectual. Vygotsky atribuía um papel preponderante às relações sociais nesse processo, tanto que a corrente pedagógica que se originou de seu pensamento é chamada de socioconstrutivismo ou sociointeracionismo.
Surge da ênfase no social uma oposição teórica em relação ao biólogo
suíço Jean Piaget (1896-1980), que também se dedicou ao tema da evolução
da capacidade de aquisição
de conhecimento pelo ser humano e chegou a conclusões que atribuem bem
mais importância aos processos internos do que aos interpessoais.
Vygotsky, que, embora discordasse de Piaget, admirava seu trabalho,
publicou críticas ao suíço em 1932. Piaget só tomaria contato com elas
nos anos 1960 e lamentou não ter podido conhecer Vygotsky em vida.
Muitos estudiosos acreditam que é possível conciliar as obras dos dois.
Lev Semenovitch Vygotsky nasceu em 1896 em Orsha, pequena cidade perto de Minsk, a capital da Bielo-Rússia, região então dominada pela Rússia (e que só se tornou independente em 1991, com a desintegração da União Soviética, adotando o nome de Belarus). Seus pais eram de uma família judaica culta e com boas condições econômicas, o que permitiu a Vygotsky uma formação sólida desde criança. Ele teve um tutor particular até entrar no curso secundário e se dedicou desde cedo a muitas leituras. Aos 18 anos, matriculou-se no curso de medicina em Moscou, mas acabou cursando a faculdade de direito. Formado, voltou a Gomel, na Bielo-Rússia, em 1917, ano da revolução bolchevique, que ele apoiou. Lecionou literatura, estética e história da arte e fundou um laboratório de psicologia - área em que rapidamente ganhou destaque, graças a sua cultura enciclopédica, seu pensamento inovador e sua intensa atividade, tendo produzido mais de 200 trabalhos científicos. Em 1925, já sofrendo da tuberculose que o mataria em 1934, publicou A Psicologia da Arte, um estudo sobre Hamlet, de William Shakespeare, cuja origem é sua tese de mestrado.
Em menos de 38 anos de vida, Vygotsky conheceu momentos políticos
drasticamente diferentes, que tiveram forte influência em seu trabalho.
Nascido sob o regime dos czares russos, Vygotsky acompanhou de perto,
como estudante e intelectual, os acontecimentos que levaram à revolução
comunista de 1917. O período que se seguiu foi marcado, entre outras
coisas, por um clima de efervescência intelectual, com a abertura de
espaço para as vanguardas artísticas e o pensamento inovador nas
ciências, além de uma preocupação em promover políticas educacionais
eficazes e abrangentes. Logo após a revolução, Vygotsky intensificou
seus estudos sobre psicologia. Visitou comunidades rurais, onde
pesquisou a relação entre nível de escolaridade e conhecimento e a
influência das tradições no desenvolvimento cognitivo. Com a ascensão ao
poder de Josef Stalin, em 1924, o ambiente cultural ficou cada vez mais
limitado. Vygotsky usou a dialética marxista para sua teoria de
aprendizado, mas sua análise da importância da esfera social no
desenvolvimento intelectual era criticada por não se basear na luta de
classes, como se tornara obrigatório na produção científica soviética.
Em 1936, dois anos após sua morte, toda a obra de Vygotsky foi censurada
pela ditadura de Stalin e assim permaneceu por 20 anos
Os estudos de Vygotsky sobre aprendizado decorrem da compreensão do homem como um ser que se forma em contato com a sociedade. "Na ausência do outro, o homem não se constrói homem", escreveu o psicólogo. Ele rejeitava tanto as teorias inatistas, segundo as quais o ser humano já carrega ao nascer as características que desenvolverá ao longo da vida, quanto as empiristas e comportamentais, que vêem o ser humano como um produto dos estímulos externos. Para Vygotsky, a formação se dá numa relação dialética entre o sujeito e a sociedade a seu redor - ou seja, o homem modifica o ambiente e o ambiente modifica o homem. Essa relação não é passível de muita generalização; o que interessa para a teoria de Vygotsky é a interação que cada pessoa estabelece com determinado ambiente, a chamada experiência pessoalmente significativa.
Segundo Vygotsky, apenas as funções psicológicas elementares se caracterizam como reflexos. Os processos psicológicos mais complexos - ou funções psicológicas superiores, que diferenciam os humanos dos outros animais - só se formam e se desenvolvem pelo aprendizado. Entre as funções complexas se encontram a consciência e o discernimento. "Uma criança nasce com as condições biológicas de falar, mas só desenvolverá a fala se aprender com os mais velhos da comunidade", diz Teresa Rego.
Outro conceito-chave de Vygotsky é a mediação. Segundo a teoria vygotskiana, toda relação do indivíduo com o mundo é feita por meio de instrumentos técnicos - como, por exemplo, as ferramentas agrícolas, que transformam a natureza - e da linguagem - que traz consigo conceitos consolidados da cultura à qual pertence o sujeito.
Para Vygotsky, a interação (principalmente a realizada entre indivíduos face a face) tem uma função central no processo de internalização. No livro A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores, afirma que "o caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa por outra pessoa". Por isso, o conceito de aprendizagem mediada confere um papel privilegiado ao professor.
É evidente que não se adquire conhecimentos apenas com os educadores: na perspectiva da teoria sociocultural desenvolvida por Vygotsky, a aprendizagem é uma atividade conjunta, em que relações colaborativas entre alunos podem e devem ter espaço (leia a questão de concurso na próxima página). "Mas o professor é o grande orquestrador de todo o processo. Além de ser o sujeito mais experiente, sua interação tem planejamento e intencionalidade educativos", explica Maria Teresa de Assunção Freitas, docente da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
É preciso atenção, entretanto, para evitar uma deturpação no que diz respeito à aplicação prática da ideia de mediação. Por acreditarem que o aprendizado se dá apenas na relação entre indivíduos, alguns educadores apressam-se em organizar aulas em que todas as atividades são realizadas em grupo. Trata-se de um entendimento incorreto do conceito: não é porque a aquisição de conhecimentos ocorre, sobretudo, nas interações que estar sempre em contato com o outro é uma prerrogativa essencial às aulas. "Os momentos de internalização são essenciais para consolidar o aprendizado. Eles são individuais e reflexivos por definição e precisam ser considerados na rotina das aulas", finaliza Maria Teresa.
O exemplo também é útil para distinguir os dois tipos de elementos mediadores propostos por Vygotsky. O primeiro são os instrumentos. Ao se interpor entre o homem e o mundo, eles ampliam as possibilidades de transformação da natureza: o machado permite um corte mais afiado e preciso, uma vasilha facilita o armazenamento de água etc. Alguns animais, sobretudo primatas, podem até utilizá-los eventualmente, mas é o homem que concebe um uso mais sofisticado: guarda instrumentos para o futuro, inventa novos e deixa instruções para que outros os fabriquem.
O segundo elemento mediador, o signo, é exclusivamente humano. Na definição do dicionário Houaiss, signo é "qualquer objeto, forma ou fenômeno que representa algo diferente de si mesmo". A linguagem, por exemplo, é toda composta de signos: a palavra cadeira remete ao objeto concreto cadeira. Perceba que você certamente pode imaginar uma agora mesmo sem a necessidade de vê-la. Para o homem, a capacidade de construir representações mentais que substituam os objetos do mundo real é um traço evolutivo importante: "Ela possibilita libertar-se do espaço e do tempo presentes, fazer relações mentais na ausência das próprias coisas, fazer planos e ter intenções", escreve Marta no livro Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento, um Processo Sócio-Histórico.
A mesma característica também é fundamental para a aquisição de conhecimentos, pois permite aprender por meio da experiência do outro (leia o trecho de livro na terceira página). Uma criança, por exemplo, não precisa pôr a mão na chama de uma vela para saber que ela queima. Esse conhecimento pode ser adquirido, por exemplo, com o conselho da mãe. Quando o pequeno associa a representação mental da vela à possibilidade de queimadura, ocorre uma internalização do conhecimento - e ele já não precisa das advertências maternas para evitar acidentes.
Biografia
Lev Semenovitch Vygotsky nasceu em 1896 em Orsha, pequena cidade perto de Minsk, a capital da Bielo-Rússia, região então dominada pela Rússia (e que só se tornou independente em 1991, com a desintegração da União Soviética, adotando o nome de Belarus). Seus pais eram de uma família judaica culta e com boas condições econômicas, o que permitiu a Vygotsky uma formação sólida desde criança. Ele teve um tutor particular até entrar no curso secundário e se dedicou desde cedo a muitas leituras. Aos 18 anos, matriculou-se no curso de medicina em Moscou, mas acabou cursando a faculdade de direito. Formado, voltou a Gomel, na Bielo-Rússia, em 1917, ano da revolução bolchevique, que ele apoiou. Lecionou literatura, estética e história da arte e fundou um laboratório de psicologia - área em que rapidamente ganhou destaque, graças a sua cultura enciclopédica, seu pensamento inovador e sua intensa atividade, tendo produzido mais de 200 trabalhos científicos. Em 1925, já sofrendo da tuberculose que o mataria em 1934, publicou A Psicologia da Arte, um estudo sobre Hamlet, de William Shakespeare, cuja origem é sua tese de mestrado.
Tempo de revolução
Lênin discursa em São Petersburgo
(então Petrogrado) em março de 1917:
agitação política e cultural.
Relação homem-ambiente
Os estudos de Vygotsky sobre aprendizado decorrem da compreensão do homem como um ser que se forma em contato com a sociedade. "Na ausência do outro, o homem não se constrói homem", escreveu o psicólogo. Ele rejeitava tanto as teorias inatistas, segundo as quais o ser humano já carrega ao nascer as características que desenvolverá ao longo da vida, quanto as empiristas e comportamentais, que vêem o ser humano como um produto dos estímulos externos. Para Vygotsky, a formação se dá numa relação dialética entre o sujeito e a sociedade a seu redor - ou seja, o homem modifica o ambiente e o ambiente modifica o homem. Essa relação não é passível de muita generalização; o que interessa para a teoria de Vygotsky é a interação que cada pessoa estabelece com determinado ambiente, a chamada experiência pessoalmente significativa.
Segundo Vygotsky, apenas as funções psicológicas elementares se caracterizam como reflexos. Os processos psicológicos mais complexos - ou funções psicológicas superiores, que diferenciam os humanos dos outros animais - só se formam e se desenvolvem pelo aprendizado. Entre as funções complexas se encontram a consciência e o discernimento. "Uma criança nasce com as condições biológicas de falar, mas só desenvolverá a fala se aprender com os mais velhos da comunidade", diz Teresa Rego.
Outro conceito-chave de Vygotsky é a mediação. Segundo a teoria vygotskiana, toda relação do indivíduo com o mundo é feita por meio de instrumentos técnicos - como, por exemplo, as ferramentas agrícolas, que transformam a natureza - e da linguagem - que traz consigo conceitos consolidados da cultura à qual pertence o sujeito.
A interação tem uma função central no processo de internalização
Para Vygotsky, a interação (principalmente a realizada entre indivíduos face a face) tem uma função central no processo de internalização. No livro A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores, afirma que "o caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa por outra pessoa". Por isso, o conceito de aprendizagem mediada confere um papel privilegiado ao professor.
É evidente que não se adquire conhecimentos apenas com os educadores: na perspectiva da teoria sociocultural desenvolvida por Vygotsky, a aprendizagem é uma atividade conjunta, em que relações colaborativas entre alunos podem e devem ter espaço (leia a questão de concurso na próxima página). "Mas o professor é o grande orquestrador de todo o processo. Além de ser o sujeito mais experiente, sua interação tem planejamento e intencionalidade educativos", explica Maria Teresa de Assunção Freitas, docente da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
É preciso atenção, entretanto, para evitar uma deturpação no que diz respeito à aplicação prática da ideia de mediação. Por acreditarem que o aprendizado se dá apenas na relação entre indivíduos, alguns educadores apressam-se em organizar aulas em que todas as atividades são realizadas em grupo. Trata-se de um entendimento incorreto do conceito: não é porque a aquisição de conhecimentos ocorre, sobretudo, nas interações que estar sempre em contato com o outro é uma prerrogativa essencial às aulas. "Os momentos de internalização são essenciais para consolidar o aprendizado. Eles são individuais e reflexivos por definição e precisam ser considerados na rotina das aulas", finaliza Maria Teresa.
Elementos mediadores: os instrumentos e os signos
Vez da experiência Para Vygotsky,
a presença de um adulto capaz de planejar as
etapas do aprendizado é ponto central para a
criança adquirir conhecimentos do
grupo de que faz parte.
O exemplo também é útil para distinguir os dois tipos de elementos mediadores propostos por Vygotsky. O primeiro são os instrumentos. Ao se interpor entre o homem e o mundo, eles ampliam as possibilidades de transformação da natureza: o machado permite um corte mais afiado e preciso, uma vasilha facilita o armazenamento de água etc. Alguns animais, sobretudo primatas, podem até utilizá-los eventualmente, mas é o homem que concebe um uso mais sofisticado: guarda instrumentos para o futuro, inventa novos e deixa instruções para que outros os fabriquem.
O segundo elemento mediador, o signo, é exclusivamente humano. Na definição do dicionário Houaiss, signo é "qualquer objeto, forma ou fenômeno que representa algo diferente de si mesmo". A linguagem, por exemplo, é toda composta de signos: a palavra cadeira remete ao objeto concreto cadeira. Perceba que você certamente pode imaginar uma agora mesmo sem a necessidade de vê-la. Para o homem, a capacidade de construir representações mentais que substituam os objetos do mundo real é um traço evolutivo importante: "Ela possibilita libertar-se do espaço e do tempo presentes, fazer relações mentais na ausência das próprias coisas, fazer planos e ter intenções", escreve Marta no livro Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento, um Processo Sócio-Histórico.
A mesma característica também é fundamental para a aquisição de conhecimentos, pois permite aprender por meio da experiência do outro (leia o trecho de livro na terceira página). Uma criança, por exemplo, não precisa pôr a mão na chama de uma vela para saber que ela queima. Esse conhecimento pode ser adquirido, por exemplo, com o conselho da mãe. Quando o pequeno associa a representação mental da vela à possibilidade de queimadura, ocorre uma internalização do conhecimento - e ele já não precisa das advertências maternas para evitar acidentes.
Elos de conhecimento
No início da infância, explorar o ambiente é uma das maneiras mais
poderosas que a criança tem (ou deveria ter) à disposição para aprender.
Ela se diverte ao ouvir os sons das teclas de um piano, pressiona
interruptores e observa o efeito, aperta e morde para examinar a textura
de um ursinho de pelúcia e assim por diante. Essa lista de atividades,
entretanto, pode dar a impressão de que, para adquirir saberes, basta o
contato direto com o objeto de conhecimento. Na realidade, boa parte das
relações entre o indivíduo e seu entorno não ocorre diretamente. Para
levar a água à boca, por exemplo, a criança utiliza um copo. Para
alcançar um brinquedo em cima da mesa, apoia-se num banquinho. Ao
ameaçar colocar o dedo na tomada, muda de ideia com o alerta da mãe - ou
pela lembrança de um choque. Em todos esses casos, um elo intermediário
se interpõe entre o ser humano e o mundo.
Em sua obra, o bielorrusso Lev Vygotsky (1896-1934) dedicou espaço a estudar esses filtros entre o organismo e o meio. Com a noção de mediação, ou aprendizagem mediada (leia um resumo do conceito na última página), o pesquisador mostrou a importância deles para o desenvolvimento dos chamados processos mentais superiores - planejar ações, conceber consequências para uma decisão, imaginar objetos etc.
Tais mecanismos psicológicos distinguem o homem dos outros animais e são essenciais na aquisição de conhecimentos. Vygotsky demonstrou essa característica referindo-se a diversos experimentos realizados com animais. Num deles, um macaco conseguia pegar uma banana no alto de uma jaula se visse um caixote no mesmo ambiente. No entanto, se não houvesse o caixote, o símio nem sequer cogitaria buscar outro objeto que o aproximasse de seu objetivo. O ser humano, por outro lado, agiria de forma diferente. "Enquanto o macaco precisa ver o instrumento, o ser humano consegue imaginá-lo ou conceber outro com a mesma função", afirma Marta Kohl de Oliveira, professora da Universidade de São Paulo (USP).
Em sua obra, o bielorrusso Lev Vygotsky (1896-1934) dedicou espaço a estudar esses filtros entre o organismo e o meio. Com a noção de mediação, ou aprendizagem mediada (leia um resumo do conceito na última página), o pesquisador mostrou a importância deles para o desenvolvimento dos chamados processos mentais superiores - planejar ações, conceber consequências para uma decisão, imaginar objetos etc.
Tais mecanismos psicológicos distinguem o homem dos outros animais e são essenciais na aquisição de conhecimentos. Vygotsky demonstrou essa característica referindo-se a diversos experimentos realizados com animais. Num deles, um macaco conseguia pegar uma banana no alto de uma jaula se visse um caixote no mesmo ambiente. No entanto, se não houvesse o caixote, o símio nem sequer cogitaria buscar outro objeto que o aproximasse de seu objetivo. O ser humano, por outro lado, agiria de forma diferente. "Enquanto o macaco precisa ver o instrumento, o ser humano consegue imaginá-lo ou conceber outro com a mesma função", afirma Marta Kohl de Oliveira, professora da Universidade de São Paulo (USP).
Trecho de livro
"O aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que, de outra forma, seriam impossíveis de acontecer."Lev Vygotsky no livro A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores
Comentário
O trecho destaca, para gerar desenvolvimento, que o aprendizado precisa ser organizado - pelo professor, por exemplo, que na interação com os alunos tem o conhecimento específico para mediar o acesso a diferentes saberes. Os estudantes, por sua vez, devem construir suas próprias ideias baseados no que foi trabalhado em aula com os colegas e o docente.Resumo do conceito
Aprendizagem mediada
Elaborador: Lev Vygotsky (1896-1934)
É a aquisição de conhecimentos realizada por meio de um elo intermediário entre o ser humano e o ambiente. Para Vygotsky, há dois tipos de elementos mediadores: os instrumentos e os signos - representações mentais que substituem objetos do mundo real. Segundo ele, o desenvolvimento dessas representações se dá sobretudo pelas interações, que levam ao aprendizado.
É a aquisição de conhecimentos realizada por meio de um elo intermediário entre o ser humano e o ambiente. Para Vygotsky, há dois tipos de elementos mediadores: os instrumentos e os signos - representações mentais que substituem objetos do mundo real. Segundo ele, o desenvolvimento dessas representações se dá sobretudo pelas interações, que levam ao aprendizado.
Quer saber mais?
CONTATO
Maria Teresa de Assunção Freitas
BIBLIOGRAFIA
A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores, Lev Vygotsky, 224 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3116-0000 (edição esgotada)
O Pensamento de Vygotsky e Bakhtin no Brasil, Maria Teresa de Assunção Freitas, 192 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500 (edição esgotada)
Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento, um Processo Sócio-Histórico, Marta Kohl de Oliveira, 112 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-161-700, 30,90 reais
Maria Teresa de Assunção Freitas
BIBLIOGRAFIA
A Formação Social da Mente: O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores, Lev Vygotsky, 224 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3116-0000 (edição esgotada)
O Pensamento de Vygotsky e Bakhtin no Brasil, Maria Teresa de Assunção Freitas, 192 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500 (edição esgotada)
Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento, um Processo Sócio-Histórico, Marta Kohl de Oliveira, 112 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-161-700, 30,90 reais
B. F. Skinner
B. F. Skinner, o cientista do comportamento e do aprendizado
B. F. Skinner
Nenhum pensador ou cientista do século 20
levou tão longe a crença na possibilidade de controlar e moldar o
comportamento humano como o norte-americano Burrhus Frederic Skinner
(1904-1990). Sua obra é a expressão mais célebre do behaviorismo,
corrente que dominou o pensamento e a prática da psicologia, em escolas e
consultórios, até os anos 1950.
O behaviorismo restringe seu estudo ao comportamento (behavior, em
inglês), tomado como um conjunto de reações dos organismos aos estímulos
externos. Seu princípio é que só é possível teorizar e agir sobre o que
é cientificamente observável. Com isso, ficam descartados conceitos e
categorias centrais para outras correntes teóricas, como consciência,
vontade, inteligência, emoção e memória - os estados mentais ou
subjetivos.
Os adeptos do behaviorismo costumam se interessar pelo processo de aprendizado como um agente de mudança do comportamento. "Skinner revela em várias passagens a confiança no planejamento da educação, com base em uma ciência do comportamento humano, como possibilidade de evolução da cultura", diz Maria de Lourdes Bara Zanotto, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Os adeptos do behaviorismo costumam se interessar pelo processo de aprendizado como um agente de mudança do comportamento. "Skinner revela em várias passagens a confiança no planejamento da educação, com base em uma ciência do comportamento humano, como possibilidade de evolução da cultura", diz Maria de Lourdes Bara Zanotto, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Condicionamento operante
O conceito-chave do pensamento de Skinner é o de condicionamento operante, que ele acrescentou à noção de reflexo condicionado, formulada pelo cientista russo Ivan Pavlov. Os dois conceitos estão essencialmente ligados à fisiologia do organismo, seja animal ou humano. O reflexo condicionado é uma reação a um estímulo casual. O condicionamento operante é um mecanismo que premia uma determinada resposta de um indivíduo até ele ficar condicionado a associar a necessidade à ação. É o caso do rato faminto que, numa experiência, percebe que o acionar de uma alavanca levará ao recebimento de comida. Ele tenderá a repetir o movimento cada vez que quiser saciar sua fome.
A diferença entre o reflexo condicionado e o condicionamento operante é que o primeiro é uma resposta a um estímulo puramente externo; e o segundo, o hábito gerado por uma ação do indivíduo. No comportamento respondente (de Pavlov), a um estímulo segue-se uma resposta. No comportamento operante (de Skinner), o ambiente é modificado e produz conseqüências que agem de novo sobre ele, alterando a probabilidade de ocorrência futura semelhante.
O condicionamento operante é um mecanismo de aprendizagem de novo comportamento - um processo que Skinner chamou de modelagem. O instrumento fundamental de modelagem é o reforço - a conseqüência de uma ação quando ela é percebida por aquele que a pratica. Para o behaviorismo em geral, o reforço pode ser positivo (uma recompensa) ou negativo (ação que evita uma conseqüência indesejada). Skinner considerava reforço apenas as contingências de estímulo. "No condicionamento operante, um mecanismo é fortalecido no sentido de tornar uma resposta mais provável, ou melhor, mais freqüente", escreveu o cientista.
Sem livre-arbítrio
Segundo Skinner, a ciência psicológica - e também o senso comum - costumava, antes do aparecimento do behaviorismo, apelar para explicações baseadas nos estados subjetivos por causa da dificuldade de verificar as relações de condicionamento operante - ou seja, todas as circunstâncias que produzem e mantêm a maioria dos comportamentos dos seres humanos. Isso porque elas formam cadeias muito complexas, que desafiam as tentativas de análise se elas não forem baseadas em métodos rigorosos de isolamento de variáveis.
Nos usos que projetou para suas conclusões científicas - em especial na educação -, Skinner pregou a eficiência do reforço positivo, sendo, em princípio, contrário a punições e esquemas repressivos. Ele escreveu um romance, Walden II, que projeta uma sociedade considerada por ele ideal, em que um amplo planejamento global, incumbido de aplicar os princípios do reforço e do condicionamento, garantiria uma ordem harmônica, pacífica e igualitária. Num de seus livros mais conhecidos, Além da Liberdade e da Dignidade, ele rejeitou noções como a do livre-arbítrio e defendeu que todo comportamento é determinado pelo ambiente, embora a relação do indivíduo com o meio seja de interação, e não passiva. Para Skinner, a cultura humana deveria rever conceitos como os que ele enuncia no título da obra.
Máquinas para fazer o aluno estudar
A Educação foi uma das preocupações centrais de Skinner, à qual ele se dedicou com seus estudos sobre a aprendizagem e a linguagem. No livro Tecnologia do Ensino, de 1968, o cientista desenvolveu o que chamou de máquinas de aprendizagem - a organização de material didático de maneira que o aluno pudesse utilizar sozinho, recebendo estímulos à medida que avançava no conhecimento. Grande parte dos estímulos se baseava na satisfação de dar respostas corretas aos exercícios propostos. A idéia nunca chegou a ser aplicada de modo sistemático, mas influenciou procedimentos da educação norte-americana. Skinner considerava o sistema escolar um fracasso por se basear na presença obrigatória, sob pena de punição. Ele defendia que se dessem aos alunos "razões positivas" para estudar. "Para Skinner, o ensino deve ser planejado para levar o aluno a emitir comportamentos progressivamente próximos do objetivo final, sem que para isso precise cometer erros", diz Maria de Lourdes Zanotto. "A idéia é que a máquina de aprendizado se ocupe das questões factuais e deixe ao professor a tarefa fundamental de ensinar o aluno a pensar."
Biografia
Burrhus Frederic Skinner nasceu em Susquehanna, no estado norteamericano da Pensilvânia, em 1904. Criado num ambiente de disciplina severa, foi um estudante rebelde, cujos interesses, na adolescência, eram a poesia e a filosofia. Formou-se em língua inglesa na Universidade de Nova York antes de redirecionar a carreira para a psicologia, que cursou em Harvard - onde tomou contato com o behaviorismo. Seguiram-se anos dedicados a experiências com ratos e pombos, paralelamente à produção de livros. O método desenvolvido para observar os animais de laboratório e suas reações aos estímulos levou-o a criar pequenos ambientes fechados que ficaram conhecidos como caixas de Skinner, depois adotadas para experimentos pela indústria farmacêutica. Quando sua filha nasceu, Skinner criou um berço climatizado, o que originou um boato de que a teria submetido a experiências semelhantes às que fazia em laboratório. Em 1948, aceitou o convite para ser professor em Harvard, onde ficou até o fim da vida. Morreu em 1990, em ativa militância a favor do behaviorismo.
Burrhus Frederic Skinner nasceu em Susquehanna, no estado norteamericano da Pensilvânia, em 1904. Criado num ambiente de disciplina severa, foi um estudante rebelde, cujos interesses, na adolescência, eram a poesia e a filosofia. Formou-se em língua inglesa na Universidade de Nova York antes de redirecionar a carreira para a psicologia, que cursou em Harvard - onde tomou contato com o behaviorismo. Seguiram-se anos dedicados a experiências com ratos e pombos, paralelamente à produção de livros. O método desenvolvido para observar os animais de laboratório e suas reações aos estímulos levou-o a criar pequenos ambientes fechados que ficaram conhecidos como caixas de Skinner, depois adotadas para experimentos pela indústria farmacêutica. Quando sua filha nasceu, Skinner criou um berço climatizado, o que originou um boato de que a teria submetido a experiências semelhantes às que fazia em laboratório. Em 1948, aceitou o convite para ser professor em Harvard, onde ficou até o fim da vida. Morreu em 1990, em ativa militância a favor do behaviorismo.
Comportamento condicionado em laboratório
Pombo tem seu comportamento
condicionado em laboratório: controle
e planejamento
Precursores da psicologia, como o filósofo norte-americano William
James (1842-1910), já haviam previsto a utilidade de um ramo da ciência
que estudasse os comportamentos puramente externos, mas a psicologia
comportamental (behaviorismo) como a conhecemos começou mesmo com o
médico russo Ivan Pavlov (1849-1936). Motivado por experiências com
cães, Pavlov criou a teoria dos reflexos condicionados. Foi o primeiro
cientista a trabalhar na área psicológica que não se utilizou de
referências a estados subjetivos como instrumento teórico. O fundador do
behaviorismo como escola, porém, foi o psicólogo norteamericano John B.
Watson (1878-1958), que formulou as estritas exigências metodológicas
que deveriam nortear seus seguidores. O compromisso de verificação
concreta de hipóteses e a recusa da introspecção aproximam o ideário de
Watson do positivismo nas ciências humanas. Watson foi o principal
inspirador de Skinner, por sua vez o maior divulgador do behaviorismo,
prevendo a utilização de seus princípios na psicoterapia, na educação e
até na formulação de políticas públicas. O behaviorismo clássico abraçou
a idéia de que todo comportamento humano é infalivelmente controlável
por meio do padrão de estímulo-resposta. Mais recentemente, o princípio
da infalibilidade estatística foi substituído pelo da probabilidade. No
imaginário ficcional do século 20, a ênfase nos conceitos de controle e
planejamento aproximou o behaviorismo e as táticas dos regimes
totalitários - a terapia behaviorista, por exemplo, usou comumente
choques elétricos e substâncias químicas para condicionar
comportamentos. Algumas das principais metáforas do terror de estado do
período fizeram referências a métodos behavioristas, como os romances
1984 (de George Orwell) e A Laranja Mecânica (de Anthony Burgess,
adaptado para o cinema por Stanley Kubrick).
Para pensar
Ainda que Skinner considerasse importante levar em conta as diferenças entre os alunos de um mesmo professor, o behaviorismo se baseia fundamentalmente na previsibilidade das reações aos estímulos e reforços. Seus objetivos educacionais buscam resultados definidos antecipadamente, para que seja possível, diante de uma criança ou adolescente, projetar a modelagem de um adulto. Você considera importante, como professor, saber de antemão exatamente o que deseja de seus alunos? É possível planejar o aprendizado em detalhes?
Quer saber mais?
Compreender o Behaviorismo, William M. Baum, 312 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 58 reais
Formação de Professores - A Contribuição da Análise do Comportamento, Maria de Lourdes Bara Zanotto, 183 págs., Ed. Educ/Fapesp/Comped, tel. (11) 3670-8558 (edição esgotada)
Pavlov/Skinner - Coleção Os Pensadores, 400 págs., Ed. Abril Cultural (edição esgotada)
Tecnologia do Ensino, Burrhus Skinner, 272 págs., Editora Pedagógica e Universitária Ltda., tel. (11) 3168-6077, 55 reais
Formação de Professores - A Contribuição da Análise do Comportamento, Maria de Lourdes Bara Zanotto, 183 págs., Ed. Educ/Fapesp/Comped, tel. (11) 3670-8558 (edição esgotada)
Pavlov/Skinner - Coleção Os Pensadores, 400 págs., Ed. Abril Cultural (edição esgotada)
Tecnologia do Ensino, Burrhus Skinner, 272 págs., Editora Pedagógica e Universitária Ltda., tel. (11) 3168-6077, 55 reais
Carl Rogers
Um psicólogo a serviço do estudante
Para o fundador da terapia não-diretiva, a tarefa do professor é liberar o caminho para que o estudante aprenda o que quiser.
Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)
Carl Rogers
Biografia
Carl Ransom Rogers nasceu em Oak Park, perto de Chicago, em 1902. Teve uma infância isolada e uma educação fortemente marcada pela religião. Tornou-se pastor e encaminhou os estudos para a teologia, quando começou a se interessar por psicologia. Na nova carreira, o primeiro foco de trabalho foram crianças submetidas a abusos e maus-tratos. Por essa época começou, por observação, a desenvolver suas teorias sobre personalidade e prática terapêutica. Aos 40 anos publicou o primeiro livro. Seguiram-se mais de 100 publicações destinadas a divulgar suas idéias, que ganharam seguidores em todo o mundo. Rogers quis provocar uma ruptura na psicologia, dando a condução do tratamento ao cliente, e não temeu acusar de autoritários a maioria dos métodos hegemônicos na área. O pilar da terapia rogeriana são os "grupos de encontro", em que vários clientes interagem. Rogers foi um dos primeiros a gravar e filmar as sessões de terapia. Morreu de um ataque cardíaco em 1987, em San Diego, Califórnia.s idéias do norte-americano Carl Rogers (1902-1987) para a educação são uma extensão da teoria que desenvolveu como psicólogo. Nos dois campos sua contribuição foi muito original, opondo-se às concepções e práticas dominantes nos consultórios e nas escolas. A terapia rogeriana se define como não-diretiva e centrada no cliente (palavra que Rogers preferia a paciente), porque cabe a ele a responsabilidade pela condução e pelo sucesso do tratamento. Para Rogers, o terapeuta apenas facilita o processo. Em seu ideal de ensino, o papel do professor se assemelha ao do terapeuta e o do aluno ao do cliente. Isso quer dizer que a tarefa do professor é facilitar o aprendizado, que o aluno conduz a seu modo.
A teoria rogeriana - que tem como característica um extenso repertório de expressões próprias - surgiu como uma terceira via entre os dois campos predominantes da psicologia em meados do século 20. De um lado havia a psicanálise, criada por Sigmund Freud (1856-1939), com sua prática balizada pela ortodoxia, e, de outro, o behaviorismo, que na época tinha B. F. Skinner (1904-1990) como expoente e se caracteriza pela submissão à biologia. A corrente de Rogers ficou conhecida como humanista, porque, em acentuado contraste com a teoria freudiana, ela se baseia numa visão otimista do homem.
Para Rogers, a sanidade mental e o desenvolvimento pleno das potencialidades pessoais são tendências naturais da evolução humana. Removidos eventuais obstáculos nesse processo, as pessoas retomam a progressão construtiva. "Ele chamou a atenção para a formação da pessoa, a importância de viver em busca de uma harmonia consigo mesma e com o entorno social", diz Ana Gracinda Queluz, pró-reitora adjunta de pesquisa e pós-graduação da Universidade Cidade de São Paulo.
Rogers sustentava que o organismo humano - assim como todos os outros, incluindo o das plantas - possui uma tendência à atualização, que tem como fim a autonomia. Na teoria rogeriana, essa é a única força motriz dos seres vivos. No caso particular dos seres humanos, segundo Rogers, o processo constante de atualização gerou a sociedade e a cultura, que se tornam forças independentes dos indivíduos e podem trabalhar contra o desenvolvimento de suas potencialidades.
Teoria adequada a um tempo de contestação
Hippies norte-americanos dos anos 1960: contracultura adotou as idéias de Rogers.
O mais importante é a relação aluno-professor
No campo da educação, Carl Rogers pouco se preocupou em definir práticas. Chegou a afirmar que "os resultados do ensino ou não têm importância ou são perniciosos". Acreditava ser impossível comunicar diretamente a outra pessoa o conhecimento que realmente importa e que ele definiu como "a verdade que foi captada e assimilada pela experiência pessoal". Além disso, Rogers estava convencido de que as pessoas só aprendem aquilo de que necessitam ou o que querem aprender. Sua atenção recaiu sobre a relação aluno-professor, que deve ser impregnada de confiança e destituída de noções de hierarquia. Instituições como avaliação, recompensa e punição estão completamente excluídas, exceto na forma de auto-avaliação. Embora anticonvencional, a pedagogia rogeriana não significa abandonar os alunos a si mesmos, mas dar apoio para que caminhem sozinhos.
O saudável é natural
Uma crença básica de Rogers é que o organismo humano sabe o que é melhor para ele e para isso conta com sentidos aprimorados ao longo da evolução da espécie. Tato, olfato e paladar reconhecem como prazeroso (sabor e cheiro agradáveis, por exemplo) o que é saudável. Igualmente, nossos instintos estão prontos a valorizar a "consideração positiva", conceito rogeriano que engloba atitudes como cuidado, carinho, atenção etc.
Até aqui, tudo bem - as pessoas sabem o que é bom para elas e podem encontrar aquilo de que necessitam na natureza e na família. O problema, segundo Rogers, é que a sociedade e a cultura desenvolvem mecanismos que contrariam essas relações potencialmente harmoniosas. Entre os mais nocivos está a "valorização condicional", o hábito que a família, a escola e outras instituições sociais têm de apenas atender às necessidades do indivíduo se ele se provar merecedor. Decorrem disso a "consideração positiva condicional" - cujo exemplo típico é o carinho dos pais dado como recompensa por bom comportamento - e a "autoconsideração positiva condicional" - originada pela tendência que as pessoas têm a absorver os valores culturais e utilizá-los como parâmetro para a valorização de si mesmas.
Funcionalidade plena
Do conflito entre o indivíduo ("sou") e o que se exige dele ("devo ser") nasce o que Rogers chama de incongruência, que gera sofrimento. Esse é o processo que, para ele, define neurose. Ao se ver pressionada a corresponder às expectativas sociais, a pessoa se vê numa situação de ameaça, o que a leva a desenvolver defesas psicológicas.
Diante disso, o objetivo do terapeuta e do professor é permitir que seus clientes e alunos se tornem pessoas "plenamente funcionais", ou seja, saudáveis. As principais marcas desse estado de funcionalidade são a abertura a novas experiências, capacidade de viver o aqui e o agora, confiança nos próprios desejos e intuições, liberdade e responsabilidade de agir e disponibilidade para criar.
Já que se tornar uma pessoa saudável é, basicamente, uma questão de ouvir a si mesma e satisfazer os próprios desejos (ou interesses), as melhores qualidades de um terapeuta ou de um professor são saber facilitar esses processos e interferir o menos possível. É esse o significado do termo "não-diretivo", a marca registrada do rogerianismo. Para que o terapeuta ou o professor seja capaz de exercer tal papel, três qualidades são requeridas: congruência - ser autêntico com o cliente/aluno; empatia - compreender seus sentimentos; e respeito - "consideração positiva incondicional", no jargão rogeriano. "O difícil na teoria rogeriana é mudar a postura diante do outro e não se surpreender com o que é humano", diz Ana Gracinda. Em grande parte, para Rogers, a chave do ensino produtivo é uma questão de ética.
Para pensar
Uma crítica que se costuma fazer à influência de Rogers na educação é que suas idéias incentivam uma liberdade sem limites, permitindo que os alunos façam o que querem, levando à indisciplina e ao individualismo. Outra objeção comum, desta vez no campo teórico, é que Rogers via os seres humanos com excessiva benevolência, sem levar em consideração possíveis impulsos inatos para a agressividade, a competição ou a autodestruição. Baseado em sua experiência em sala de aula, qual é sua opinião? É possível fundamentar a prática pedagógica na idéia de que todo aluno tem tendência natural ao aprendizado e a relações interpessoais construtivas?
Quer saber mais?
Liberdade para Aprender, Carl R. Rogers, 330 págs., Ed. Interlivros (edição esgotada)
Psicologia & Educação: Revendo Contribuições, Vera Maria Nigro de Souza Placco (org.), 180 págs., Ed. Educ/Fapesp, tel. (11) 3670- 8558, 22 reais
Tornar-se Pessoa, Carl R. Rogers, 514 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677, 66,80 reais
Psicologia & Educação: Revendo Contribuições, Vera Maria Nigro de Souza Placco (org.), 180 págs., Ed. Educ/Fapesp, tel. (11) 3670- 8558, 22 reais
Tornar-se Pessoa, Carl R. Rogers, 514 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677, 66,80 reais
Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu, o investigador da desigualdade
O sociólogo francês detectou mecanismos de
conservação e reprodução em todas as áreas da atividade humana, entre
elas, o sistema educacional
Márcio Ferrari (novaescola@atleitor.com.br)
Biografia
Embora a maioria dos grandes pensadores da educação tenha
desenvolvido suas teorias com base numa visão crítica da escola, somente
na segunda metade do século 20 surgiram questionamentos bem
fundamentados sobre a neutralidade da instituição. Até ali a instrução
era vista como um meio de elevação cultural mais ou menos à parte das
tensões sociais. O francês Pierre Bourdieu (1930-2002) empreendeu uma
investigação sociológica do conhecimento que detectou um jogo de
dominação e reprodução de valores.
Suas pesquisas
exerceram forte influência nos ambientes pedagógicos nas décadas de
1970 e 1980. "Desde então, as teorias de reprodução foram criticadas por
exagerar a visão pessimista sobre a escola", diz Cláudio Martins
Nogueira, professor da Universidade Federal de Minas Gerais. "Vários
autores passaram a mostrar que nem sempre as desigualdades sociais se
reproduzem completamente na sala de aula." Na essência, contudo, as
conclusões de Bourdieu não foram contestadas.
Na mesma época em que as restrições a sua obra acadêmica se tornaram mais frequentes, a figura pública do sociólogo ganhou notoriedade pelas críticas à mídia, aos governos de esquerda da Europa e à globalização. Ele costuma ser incluído na tradição francesa do intelectual público e combativo, a exemplo do escritor Émile Zola (1840-1902) e do filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980).
Na mesma época em que as restrições a sua obra acadêmica se tornaram mais frequentes, a figura pública do sociólogo ganhou notoriedade pelas críticas à mídia, aos governos de esquerda da Europa e à globalização. Ele costuma ser incluído na tradição francesa do intelectual público e combativo, a exemplo do escritor Émile Zola (1840-1902) e do filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980).
Pierre Bourdieu nasceu em 1930 no vilarejo de Denguin, no sudoeste da
França. Fez os estudos básicos num internato em Pau, experiência que
deixou nele profundas marcas negativas. Em 1951 ingressou na Faculdade
de Letras, em Paris, e na Escola Normal Superior. Três anos depois,
graduou-se em filosofia. Prestou serviço militar na Argélia (então
colônia francesa), onde retomou a carreira acadêmica e escreveu o
primeiro livro, sobre a sociedade cabila. De volta à França, assumiu a
função de assistente do filósofo Raymond Aron (1905-1983) na Faculdade
de Letras de Paris e, simultaneamente, filiou-se ao Centro Europeu de
Sociologia, do qual veio a ser secretário-geral. Bourdieu publicou mais
de 300 títulos, entre livros e artigos. Fundou as publicações Actes de
la Recherche en Sciences Sociales e Liber. Em 1982, propôs a criação de
uma "sociologia da sociologia" em sua aula inaugural no Collège de
France, levando esse objetivo em frente nos anos seguintes. Quando
morreu de câncer, em 2002, foi tema de longos perfis
na imprensa européia. Um ano antes, um documentário sobre ele,
Sociologia É um Esporte de Combate, havia sido um sucesso inesperado nos
cinemas da França. Entre seus livros mais conhecidos estão A Distinção
(1979), que trata dos julgamentos estéticos como distinção de classe,
Sobre a Televisão (1996) e Contrafogos (1998), a respeito do discurso do
chamado neoliberalismo.
A globalização e os descontentes
Bourdieu tornou-se ideólogo e símbolo dos protestos contra a
globalização econômica e cultural, sobretudo depois do lançamento, em
1993, do livro A Miséria do Mundo. Ele assumiu um papel ativo de apoio à
greve do servidores franceses, em 1995 e 1996, por julgar que ela
representava um sinal de resistência do espírito público contra as
privatizações. Desde então, posicionou-se fortemente contra a tendência
política neoliberal e todas as outras que considerava aparentadas a ela,
incluindo a linha de moderação adotada pelos partidos de esquerda que
chegaram ao poder na Europa. Grupos movidos por insatisfação semelhante à
de Bourdieu amplificaram seus protestos durante a reunião da
Organização Mundial do Comércio em Seattle, nos Estados Unidos, em 1999,
dando origem ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Com suas críticas
a uma ordem que considerava excludente, Bourdieu centrou fogo contra os
meios de comunicação, que acusava de renderem-se à lógica do comércio e
produzirem lixo cultural em larga escala.
Capital cultural
Outro conceito utilizado por Bourdieu é o de campo, para designar nichos
da atividade humana nos quais se desenrolam lutas pela detenção do
poder simbólico, que produz e confirma significados Esses conflitos
consagram valores que se tornam aceitáveis pelo senso comum. No campo da
arte, a luta simbólica decide o que é erudito ou popular, de bom ou de
mau gosto. Dos elementos vitoriosos, formam-se o habitus e o código de
aceitação social.
Os indivíduos, por sua vez, se posicionam nos campos de acordo com o capital acumulado - que pode ser social, cultural, econômico e simbólico. O capital social, por exemplo, corresponde à rede de relações interpessoais que cada um constrói, com os benefícios ou malefícios que ela pode gerar na competição entre os grupos humanos. Já na educação se acumula sobretudo capital cultural, na forma de conhecimentos apreendidos, livros, diplomas etc.
Os indivíduos, por sua vez, se posicionam nos campos de acordo com o capital acumulado - que pode ser social, cultural, econômico e simbólico. O capital social, por exemplo, corresponde à rede de relações interpessoais que cada um constrói, com os benefícios ou malefícios que ela pode gerar na competição entre os grupos humanos. Já na educação se acumula sobretudo capital cultural, na forma de conhecimentos apreendidos, livros, diplomas etc.
Os sutis artifícios de perpetuação
Escola de filhos de imigrantes ilegais na
França:
desigualdade tende a se reproduzir.
Com os instrumentos teóricos que criou, Bourdieu afastou de suas
análises a ênfase central nos fatores econômicos - que caracteriza o
marxismo - e introduziu, para se referir ao controle de um estrato
social sobre outro, o conceito de violência simbólica, legitimadora da
dominação e posta em prática por meio de estilos de vida. Isso
explicaria por que é tão difícil alterar certos padrões sociais: o poder
exercido em campos como a linguagem é mais eficiente e sutil do que o
uso da força propriamente dita.
Para Bourdieu, a escola é um espaço de reprodução de estruturas sociais e
de transferência de capitais de uma geração para outra. É nela que o
legado econômico da família transforma-se em capital cultural. E este,
segundo o sociólogo, está diretamente relacionado ao desempenho dos
alunos na sala de aula. Eles tendem a ser julgados pela quantidade e
pela qualidade do conhecimento que já trazem de casa, além de várias
"heranças", como a postura corporal e a habilidade de falar em público.
Os próprios estudantes mais pobres acabam encarando a trajetória dos
bem-sucedidos como resultante de um esforço recompensado.
Uma mostra dos mecanismos de perpetuação da desigualdade está no fato,
facilmente verificável, de que a frustração com o fracasso escolar leva
muitos alunos e suas famílias a investir menos esforços no aprendizado
formal, desenhando um círculo que se auto-alimenta. Nos primeiros livros
que escreveu, Bourdieu previa a possibilidade de superar essa situação
se as escolas deixassem de supor a bagagem cultural que os alunos trazem
de casa e partissem do zero. Mas, com o passar do tempo, o pessimismo
foi crescendo na obra do sociólogo: a competição escolar passou a ser
vista como incontornável.
Valores incorporados
O livro A Reprodução (1970), escrito em parceria com Jean-Claude
Passeron, analisou o funcionamento do sistema escolar francês e concluiu
que, em vez de ter uma função transformadora, ele reproduz e reforça as
desigualdades sociais. Quando a criança começa sua aprendizagem formal,
segundo os autores, é recebida num ambiente marcado pelo caráter de
classe, desde a organização pedagógica até o modo como prepara o futuro
dos alunos.
Para construir sua teoria, Bourdieu criou uma série de conceitos, como
habitus e capital cultural. Todos partem de uma tentativa de superação
da dicotomia entre subjetivismo e objetivismo. "Ele acreditava que
qualquer uma dessas tendências, tomada isoladamente, conduz a uma
interpretação restrita ou mesmo equivocada da realidade social", explica
Nogueira. A noção de habitus procura evitar esse risco. Ela se refere à
incorporação de uma determinada estrutura social pelos indivíduos,
influindo em seu modo de sentir, pensar e agir, de tal forma que se
inclinam a confirmá-la e reproduzi-la, mesmo que nem sempre de modo
consciente.
Um exemplo disso: a dominação masculina, segundo o sociólogo, se mantém não só pela preservação de mecanismos sociais mas pela absorção involuntária, por parte das mulheres, de um discurso conciliador. Na formação do habitus, a produção simbólica - resultado das elaborações em áreas como arte, ciência, religião e moral - constitui o vetor principal, porque recria as desigualdades de modo indireto, escamoteando hierarquias e constrangimentos.
Assim, estruturas sociais e agentes individuais se alimentam continuamente numa engrenagem de caráter conservador. É o caso da maneira como cada um lida com a linguagem. Tudo que a envolve - correção gramatical, sotaque, habilidade no uso de palavras e construções etc. - está fortemente relacionado à posição social de quem fala e à função de ratificar a ordem estabelecida. Para Bourdieu, todas essas ferramentas de poder são essencialmente arbitrárias, mas isso não costuma ser percebido. "É necessário que os dominados as percebam como legítimas, justas e dignas de serem utilizadas", afirma Nogueira.
Para pensar
Frequentemente fazemos, sem perceber, julgamentos severos com base em motivos nada consistentes ou, pior, preconceituosos. Na escola, é comum alunos serem discriminados por causa de sua aparência e seus hábitos. Você já observou como muitas vezes isso é uma manifestação de sentimentos de superioridade de alguns grupos sociais em relação a outros?
Quer saber mais?
A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino, Jean-Claude Passeron e Pierre Bourdieu, 312 págs., Ed. Francisco Alves, tel. (21) 2240-7989 (edição esgotada)
A Economia das Trocas Simbólicas, Pierre Bourdieu, org. Sergio Miceli, 424 págs., Ed. Perspectiva, tel. (11) 3885- 8388, 35 reais
Bourdieu e a Educação, Maria Alice Nogueira e Cláudio M. Martins Nogueira, 152 págs., Ed. Autêntica, tel. (31) 3222-6819, 19,50 reais
Escritos de Educação, Pierre Bourdieu, org. Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani, 256 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2246-5552, 52,40 reais
A Economia das Trocas Simbólicas, Pierre Bourdieu, org. Sergio Miceli, 424 págs., Ed. Perspectiva, tel. (11) 3885- 8388, 35 reais
Bourdieu e a Educação, Maria Alice Nogueira e Cláudio M. Martins Nogueira, 152 págs., Ed. Autêntica, tel. (31) 3222-6819, 19,50 reais
Escritos de Educação, Pierre Bourdieu, org. Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani, 256 págs., Ed. Vozes, tel. (24) 2246-5552, 52,40 reais
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Karl Marx, o filósofo da revolução
O pensador alemão, um dos mais influentes de todos os tempos, investigou a mecânica do capitalismo e previu que o sistema seria superado pela emancipação dos trabalhadores
Karl Marx
No século 20, o pensamento de Marx foi submetido a numerosas interpretações, agrupadas sob a classificação de "marxismo". Algumas sustentaram regimes políticos duradouros, como o comunismo soviético (1917-1991) e o chinês (em vigor desde 1949). Muitos governos comunistas entraram em colapso, por oposição popular, nas décadas de 1980 e 1990. Em recente pesquisa da rádio BBC, que mobilizou grande parte da imprensa inglesa, Marx foi eleito o filósofo mais importante de todos os tempos.
Luta de classes
Na base do pensamento de Marx está a idéia de que tudo se encontra em constante processo de mudança. O motor da mudança são os conflitos resultantes das contradições de uma mesma realidade. Para Marx, o conflito que explica a história é a luta de classes. Segundo o filósofo, as sociedades se estruturam de modo a promover os interesses da classe economicamente dominante. No capitalismo, a classe dominante é a burguesia; e aquela que vende sua força de trabalho e recebe apenas parte do valor que produz é o proletariado.
O marxismo prevê que o proletariado se libertará dos vínculos com as forças opressoras e, assim, dará origem a uma nova sociedade. Segundo Marx, o conflito de classes já havia sido responsável pelo surgimento do capitalismo, cujas raízes estariam nas contradições internas do feudalismo medieval. Em ambos os regimes (feudalismo e capitalismo), as forças econômicas tiveram papel central. "O moinho de vento nos dá uma sociedade com senhor feudal; o motor a vapor, uma sociedade com o capitalista industrial", escreveu Marx.
A obra de Marx reúne uma grande variedade de textos: reflexões curtas sobre questões políticas imediatas, estudos históricos, escritos militantes - como O Manifesto Comunista, parceria com Friedrich Engels - e trabalhos de grande fôlego, como sua obra-prima, O Capital, que só teve o primeiro de quatro volumes lançado antes de sua morte. A complexidade da obra de Marx, com suas constantes autocríticas e correções de rota, é responsável, em parte, pela variedade de interpretações feitas por seus seguidores.
Na base do pensamento de Marx está a idéia de que tudo se encontra em constante processo de mudança. O motor da mudança são os conflitos resultantes das contradições de uma mesma realidade. Para Marx, o conflito que explica a história é a luta de classes. Segundo o filósofo, as sociedades se estruturam de modo a promover os interesses da classe economicamente dominante. No capitalismo, a classe dominante é a burguesia; e aquela que vende sua força de trabalho e recebe apenas parte do valor que produz é o proletariado.
O marxismo prevê que o proletariado se libertará dos vínculos com as forças opressoras e, assim, dará origem a uma nova sociedade. Segundo Marx, o conflito de classes já havia sido responsável pelo surgimento do capitalismo, cujas raízes estariam nas contradições internas do feudalismo medieval. Em ambos os regimes (feudalismo e capitalismo), as forças econômicas tiveram papel central. "O moinho de vento nos dá uma sociedade com senhor feudal; o motor a vapor, uma sociedade com o capitalista industrial", escreveu Marx.
A obra de Marx reúne uma grande variedade de textos: reflexões curtas sobre questões políticas imediatas, estudos históricos, escritos militantes - como O Manifesto Comunista, parceria com Friedrich Engels - e trabalhos de grande fôlego, como sua obra-prima, O Capital, que só teve o primeiro de quatro volumes lançado antes de sua morte. A complexidade da obra de Marx, com suas constantes autocríticas e correções de rota, é responsável, em parte, pela variedade de interpretações feitas por seus seguidores.
Trabalho e alienação
Em O Capital, Marx realiza uma investigação profunda sobre o modo de produção capitalista e as condições de superá-lo, rumo a uma sociedade sem classes e na qual a propriedade privada seja extinta. Para Marx, as estruturas sociais e a própria organização do Estado estão diretamente ligadas ao funcionamento do capitalismo. Por isso, para o pensador, a idéia de revolução deve implicar mudanças radicais e globais, que rompam com todos os instrumentos de dominação da burguesia.
Marx abordou as relações capitalistas como fenômeno histórico, mutável e contraditório, trazendo em si impulsos de ruptura. Um desses impulsos resulta do processo de alienação a que o trabalhador é submetido, segundo o pensador. Por causa da divisão do trabalho - característica do industrialismo, em que cabe a cada um apenas uma pequena etapa da produção -, o empregado se aliena do processo total.
Além disso, o retorno da produção de cada homem é uma quantia de dinheiro, que, por sua vez, será trocada por produtos. O comércio seria uma engrenagem de trocas em que tudo - do trabalho ao dinheiro, das máquinas ao salário - tem valor de mercadoria, multiplicando o aspecto alienante.
Por outro lado, esse processo se dá à custa da concentração da propriedade por aqueles que empregam a mão-de-obra em troca de salário. As necessidades dos trabalhadores os levarão a buscar produtos fora de seu alcance. Isso os pressiona a querer romper com a própria alienação.
Um dos objetivos da revolução prevista por Marx é recuperar em todos os homens o pleno desenvolvimento intelectual, físico e técnico. É nesse sentido que a educação ganha ênfase no pensamento marxista. "A superação da alienação e da expropriação intelectual já está sendo feita, segundo Marx", diz Leandro Konder. "O processo atual se aceleraria com a revolução proletária para alcançar, afinal, as metas maiores na sociedade comunista."
Aprendizado para a mente, o corpo e as mãos
Combater a alienação e a desumanização era, para Marx, a função social da educação. Para isso seria necessário aprender competências que são indispensáveis para a compreensão do mundo físico e social. O filósofo alertava para o risco de a escola ensinar conteúdos sujeitos a interpretações "de partido ou de classe". Ele valorizava a gratuidade da educação, mas não o atrelamento a políticas de Estado - o que equivaleria a subordinar o ensino à religião. Marx via na instrução das fábricas, criada pelo capitalismo, qualidades a ser aproveitadas para um ensino transformador - principalmente o rigor com que encarava o aprendizado para o trabalho. O mais importante, no entanto, seria ir contra a tendência "profissionalizante", que levava as escolas industriais a ensinar apenas o estritamente necessário para o exercício de determinada função. Marx entendia que a educação deveria ser ao mesmo tempo intelectual, física e técnica. Essa concepção, chamada de "onilateral" (múltipla), difere da visão de educação "integral" porque esta tem uma conotação moral e afetiva que, para Marx, não deveria ser trabalhada pela escola, mas por "outros adultos". O filósofo não chegou a fazer uma análise profunda da educação com base na teoria que ajudou a criar. Isso ficou para seguidores como o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), o ucraniano Anton Makarenko (1888-1939) e a russa Nadia Krupskaia (1869-1939).
Em O Capital, Marx realiza uma investigação profunda sobre o modo de produção capitalista e as condições de superá-lo, rumo a uma sociedade sem classes e na qual a propriedade privada seja extinta. Para Marx, as estruturas sociais e a própria organização do Estado estão diretamente ligadas ao funcionamento do capitalismo. Por isso, para o pensador, a idéia de revolução deve implicar mudanças radicais e globais, que rompam com todos os instrumentos de dominação da burguesia.
Marx abordou as relações capitalistas como fenômeno histórico, mutável e contraditório, trazendo em si impulsos de ruptura. Um desses impulsos resulta do processo de alienação a que o trabalhador é submetido, segundo o pensador. Por causa da divisão do trabalho - característica do industrialismo, em que cabe a cada um apenas uma pequena etapa da produção -, o empregado se aliena do processo total.
Além disso, o retorno da produção de cada homem é uma quantia de dinheiro, que, por sua vez, será trocada por produtos. O comércio seria uma engrenagem de trocas em que tudo - do trabalho ao dinheiro, das máquinas ao salário - tem valor de mercadoria, multiplicando o aspecto alienante.
Por outro lado, esse processo se dá à custa da concentração da propriedade por aqueles que empregam a mão-de-obra em troca de salário. As necessidades dos trabalhadores os levarão a buscar produtos fora de seu alcance. Isso os pressiona a querer romper com a própria alienação.
Um dos objetivos da revolução prevista por Marx é recuperar em todos os homens o pleno desenvolvimento intelectual, físico e técnico. É nesse sentido que a educação ganha ênfase no pensamento marxista. "A superação da alienação e da expropriação intelectual já está sendo feita, segundo Marx", diz Leandro Konder. "O processo atual se aceleraria com a revolução proletária para alcançar, afinal, as metas maiores na sociedade comunista."
Aprendizado para a mente, o corpo e as mãos
Litografia do século 19 mostra metalúrgica italiana: Marx aprovava ensino nas fábricas.
Biografia
Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, sul da Alemanha (então Prússia). Seu pai, advogado, e sua mãe descendiam de judeus, mas haviam se convertido ao protestantismo. Estudou direito em Bonn e depois em Berlim, mas se interessou mais por filosofia e história. Na universidade, aproximou-se de grupos dedicados à política. Aos 23 anos, quando voltou a Trier, percebeu que não seria bem-vindo nos meios acadêmicos e passou a viver da venda de artigos. Em 1843, casou-se com a namorada de infância, Jenny von Westphalen. O casal se mudou para Paris, onde Marx aderiu à militância comunista, atraindo a atenção de Friedrich Engels, depois amigo e parceiro. Foi expulso de Paris em 1845, indo morar na Bélgica, de onde também seria deportado. Nos anos seguintes, se engajou cada vez mais na organização da política operária, o que despertou a ira de governos e da imprensa. A Justiça alemã o acusou de delito de imprensa e incitação à rebelião armada, mas ele foi absolvido nos dois casos. Expulso da Prússia e novamente da França, Marx se estabeleceu em Londres em 1849, onde viveu na miséria durante 15 anos, ajudado, quando possível, por Engels. Dois de seus quatro filhos morreram no período. O isolamento político terminou em 1864, com a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida como Primeira Internacional Socialista), que o adotou como líder intelectual, após a derrota do anarquista Mikhail Bakunin. Em 1871, a eclosão da Comuna de Paris o tornou conhecido internacionalmente. Na última década de vida, sua militância tornou-se mais crítica e indireta. Marx morreu em 1883, em Londres.
Tempo de utopias e rebeliões na Europa
Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, sul da Alemanha (então Prússia). Seu pai, advogado, e sua mãe descendiam de judeus, mas haviam se convertido ao protestantismo. Estudou direito em Bonn e depois em Berlim, mas se interessou mais por filosofia e história. Na universidade, aproximou-se de grupos dedicados à política. Aos 23 anos, quando voltou a Trier, percebeu que não seria bem-vindo nos meios acadêmicos e passou a viver da venda de artigos. Em 1843, casou-se com a namorada de infância, Jenny von Westphalen. O casal se mudou para Paris, onde Marx aderiu à militância comunista, atraindo a atenção de Friedrich Engels, depois amigo e parceiro. Foi expulso de Paris em 1845, indo morar na Bélgica, de onde também seria deportado. Nos anos seguintes, se engajou cada vez mais na organização da política operária, o que despertou a ira de governos e da imprensa. A Justiça alemã o acusou de delito de imprensa e incitação à rebelião armada, mas ele foi absolvido nos dois casos. Expulso da Prússia e novamente da França, Marx se estabeleceu em Londres em 1849, onde viveu na miséria durante 15 anos, ajudado, quando possível, por Engels. Dois de seus quatro filhos morreram no período. O isolamento político terminou em 1864, com a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida como Primeira Internacional Socialista), que o adotou como líder intelectual, após a derrota do anarquista Mikhail Bakunin. Em 1871, a eclosão da Comuna de Paris o tornou conhecido internacionalmente. Na última década de vida, sua militância tornou-se mais crítica e indireta. Marx morreu em 1883, em Londres.
Tempo de utopias e rebeliões na Europa
Militares cercam estátua de Napoleão derrubada durante a Comuna de Paris: Marx chega às ruas.
Marx viveu numa época em que a Europa se debatia em conflitos, tanto no campo das idéias como no das instituições. Já na universidade, as doutrinas socialistas e anarquistas se encontravam no centro das discussões dos grupos que Marx freqüentava. Alguns dos pensadores que então alimentavam as esperanças transformadoras dos estudantes hoje são chamados de "socialistas utópicos", como o britânico Robert Owen (1771-1858) e os franceses Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Dois momentos da história européia foram vividos por Marx intensamente e tiveram importantes reflexos em sua obra: as revoltas antimonárquicas de 1848 - na Itália, na França, na Alemanha e na Áustria - e a Comuna de Paris, que, durante pouco mais de três meses em 1871, levou os operários ao poder, influenciados pelas idéias do próprio Marx. A insurreição acabou reprimida, com um saldo de 20 mil mortes, 38 mil prisões e 7 mil deportações.
Para pensar
A alienação de que fala Marx é conseqüência do afastamento entre os interesses do trabalhador e aquilo que ele produz. De modo mais amplo, trata-se também do abismo entre o que se aprende apenas para cumprir uma função no sistema de produção e uma formação que realmente ajude o ser humano a exercer suas potencialidades. Você já pensou se a educação, como é praticada a seu redor, procura dar condições ao aluno para que se desenvolva por inteiro ou se responde apenas a objetivos limitados pelas circunstâncias?
A alienação de que fala Marx é conseqüência do afastamento entre os interesses do trabalhador e aquilo que ele produz. De modo mais amplo, trata-se também do abismo entre o que se aprende apenas para cumprir uma função no sistema de produção e uma formação que realmente ajude o ser humano a exercer suas potencialidades. Você já pensou se a educação, como é praticada a seu redor, procura dar condições ao aluno para que se desenvolva por inteiro ou se responde apenas a objetivos limitados pelas circunstâncias?
terça-feira, 9 de abril de 2013
John Locke
Pensador inglês via na mente da criança uma tela em branco que o professor deveria preencher, fornecendo informações e vivências.
Biografia:
John Locke nasceu
em Wrington, no sudoeste da Inglaterra, em 1632. Aos 20 anos, entrou
para a Universidade de Oxford, onde orientou os estudos para as ciências
naturais e a medicina. Em 1666, numa visita a Oxford, o lorde Anthony
Ashley-Cooper, futuro conde de Shaftesbury, precisou de cuidados médicos
e foi atendido por Locke. No ano seguinte, ele se tornou conselheiro do
lorde para questões de saúde, política e economia. Por influência de
Ashley, Locke ajudou a elaborar a Constituição do estado norteamericano
da Carolina. Depois de uma temporada na França, o filósofo foi chamado
por Ashley a assumir um cargo de conselheiro no governo do rei Carlos
II. Uma reviravolta política afastou ambos do poder. Perseguido, Locke
se refugiou na Holanda. Com a Revolução Gloriosa na Inglaterra, voltou
na comitiva do novo rei, Guilherme de Orange. Em seus últimos anos,
viveu no campo, perto de Oates, e foi mentor intelectual do Partido
Liberal. Morreu de causas naturais em 1704.
O triunfo liberal sobre o poder absoluto
Alegoria do desembarque de Guilherme de Orange na Inglaterra: vitória da burguesia.
A volta de Locke à Inglaterra, em 1688, na comitiva do novo rei, Guilherme de Orange, teve um forte aspecto simbólico. Significou o triunfo das idéias liberais do filósofo a respeito da organização do Estado e a consolidação do poder político da burguesia. Guilherme de Orange desembarcou no país com o propósito de recorrer às armas contra o rei Jaime II, que acabou fugindo para a França. O monarca, católico e impopular, havia atraído o descontentamento da cúpula da Igreja Anglicana, que articulou o retorno do futuro soberano. O episódio, que passou para a história como Revolução Gloriosa, foi na verdade uma transição pacífica, mas significou uma mudança profunda no sistema político, antes baseado no poder absoluto do rei. Assim que assumiu, Guilherme de Orange convocou um Parlamento. A nova casa legislativa publicou uma declaração de direitos, inaugurando a monarquia constitucional, que, atualizada, vigora até hoje no país. A deposição de um rei por descontentamento popular foi ao encontro das idéias que Locke expôs no Segundo Tratado sobre o Governo. Na obra, o filósofo defende que a administração do Estado se sustenta num pacto social entre o rei e o povo, tendo em vista o bem-comum. Se os interesses do povo são contrariados, justifica-se a deposição do monarca. Locke, para relativizar o poder do trono, argumentava que todos os cidadãos têm o direito natural à liberdade e à propriedade, ainda que, no último caso, excluísse, na prática, aqueles que vendiam sua força de trabalho aos donos de terras.
Guia para a formação do cavalheiro
Retrato de um típico gentleman do século18: educação para a virtude e as boas maneiras.
No livro Alguns Pensamentos Referentes à Educação, Locke afirma que
"é possível levar, facilmente, a alma das crianças numa ou noutra
direção, como a água". Formar um aluno, sob o aspecto intelectual ou
moral, seria exclusivamente um resultado do trabalho
das pessoas que os educam - pais e professores, a quem caberia
sobretudo dar o exemplo de como pensar e se comportar, treinando a
criança para agir adequadamente. O aprendizado deveria ser feito por
meio de atividades. A idéia era que a criança, pelo hábito, acabaria por
entender o que está fazendo. Para Locke, a educação ideal seria
promovida em casa, por um preceptor, papel que ele próprio desempenhou
para os filhos de alguns amigos. "Locke pensou somente nos homens
burgueses, destinados a ser os novos governantes, pois acreditava que
por intermédio do exemplo dado por eles seriam educados os demais", diz
Clenio Lago. A conduta e a ética do gentleman (o cavalheiro burguês),
incluindo as boas maneiras, tinham prioridade sobre a instrução. A saúde
e o controle do corpo também ganharam destaque porque Locke preconizava
certo endurecimento físico para facilitar a autodisciplina e o domínio
das paixões.
Treino para a razão
É por
isso que, para Locke, o aprendizado depende primordialmente das
informações e vivências às quais a criança é submetida e que ela absorve
de modo relativamente previsível e passivo. É, portanto, um aprendizado
de fora para dentro, ao contrário do que defenderam alguns pensadores
de linha idealista, como o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e
Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), e a maioria dos teóricos da
educação contemporâneos.
"A concepção construtivista, por
exemplo, institui-se com base na relação entre sujeito e objeto,
enquanto a visão lockiana enfatiza apenas o objeto", explica Lago.
Embora considerasse que a origem de todas as idéias estava fora do
indivíduo, Locke via a capacidade de entendimento como inata e variável
de pessoa para pessoa.
Os dois fundamentos iniciais de sua obra
mais importante, Ensaio sobre o Entendimento Humano, são a negação da
existência de idéias inatas - o que contrariava o legado do filósofo
mais influente da época, o francês René Descartes (1596-1650) - e o
princípio de que todas as idéias nascem da experiência, refundando, na
ciência moderna, o empirismo. Ao combater o inatismo, Locke se opunha às
correntes de pensamento que encontravam no ser humano a idéia natural
de Deus e noções de moral ou bondade intrínsecas. Tudo isso seria
atingido apenas pela razão. Os princípios morais derivariam de
considerações a respeito do que é vantajoso para o indivíduo e para a
coletividade.
A educação ganhava, desse modo, importância
incontornável na formação da criança, uma vez que, sozinha, ela se
encontra desprovida de matéria-prima para o raciocínio e sem orientação
para adquiri-lo, estando fadada ao egocentrismo e à ignorância moral.
Apesar do valor que dava à racionalidade, Locke era cético quanto ao
alcance da compreensão da mente. O objetivo de sua obra principal foi
tentar determinar quais são os mecanismos e os limites da capacidade de
apreensão do mundo pelo homem. Segundo o filósofo, como todo
conhecimento advém, em última instância, dos sentidos, só se pode captar
as coisas e os fenômenos em sua superfície, sendo impossível chegar a
suas causas primordiais. Do material fornecido pelos sentidos nasceriam
as idéias simples que, combinadas, formariam as mais complexas. O
conhecimento não passaria de "concordância ou discordância entre as
idéias".
Para Locke, as crianças não são dotadas de motivação
natural para o aprendizado. É necessário oferecer o conhecimento a elas
de modo convidativo - mediante jogos, por exemplo. E, embora desse
primazia teórica às sensações, não via nelas função didática: educar com
prêmios e punições (para provocar prazer e mal-estar) seria manter os
pequenos no estágio
mais primário do entendimento humano. Levá-los a pensar faria com que
rompessem a dependência dos sentidos. Embora não descartasse a
possibilidade de castigos, inclusive corporais, Locke afirmava que seu
uso poderia fazer com que as crianças se tornassem adultos frágeis e
medrosos.
John Locke, um explorador do entendimento humano
A influência do inglês John Locke (1632-1704) costuma ser separada em
três grandes áreas. Na política, ele foi o pai do liberalismo como o
conhecemos hoje: é o autor de dois tratados de governo que sustentaram a
implantação da monarquia parlamentarista na Inglaterra, inspiraram a
Constituição dos Estados Unidos e anteciparam as idéias dos iluministas
franceses. Na filosofia, construiu uma teoria do conhecimento inovadora,
que investigou o modo como a mente capta e traduz o mundo exterior. Na
educação, compilou uma série de preceitos sobre aprendizado e
desenvolvimento, com base em sua experiência de médico e preceptor, que
teve grande repercussão nas classes emergentes de seu tempo.
Mas essas três vertentes não são estanques. A grande e
duradoura importância de Locke para a história do pensamento está no
entrecruzamento de suas áreas de estudo. Assim, a defesa da liberdade
individual, que ocupa lugar central na doutrina política lockiana,
encontra correspondência na prioridade que ele confere, no campo da
educação, ao desenvolvimento de um pensamento próprio pela criança.
E suas investigações sobre o conhecimento o levaram a conceber um aprendizado coerente com sua mais famosa afirmação: a mente humana é tabula rasa, expressão latina análoga à idéia de uma tela em branco. "A razão, inicialmente, encontra-se apenas em potência na criança", diz Clenio Lago, da Universidade do Oeste de Santa Catarina.
E suas investigações sobre o conhecimento o levaram a conceber um aprendizado coerente com sua mais famosa afirmação: a mente humana é tabula rasa, expressão latina análoga à idéia de uma tela em branco. "A razão, inicialmente, encontra-se apenas em potência na criança", diz Clenio Lago, da Universidade do Oeste de Santa Catarina.
Para pensar
Locke
acreditava que as crianças vêm ao mundo sem nenhum conhecimento, mas já
trazendo inclinações e principalmente um temperamento. O educador
deveria observar as características emocionais do aluno para submetê-lo a
diferentes métodos de aprendizado. Mesmo que as concepções de
conhecimento do filósofo estejam parcialmente ultrapassadas, essa é uma
recomendação que ainda pode ser levada em conta. Você, como professor,
costuma observar e analisar o temperamento de seus alunos?
Quer saber mais?
História da Educação e da Pedagogia, Lorenzo Luzuriaga, 312 págs., Cia. Ed. Nacional,
tel. (11) 2799-7999, 44,90 reais
John Locke, coleção Os Pensadores, 320 págs., Ed. Nova Cultural, tel. (11) 3039-0933 (edição esgotada)
Locke e a Educação, Clenio Lago, 130 págs., Ed. Argos, tel. (49) 3321-8218, 21,20 reais
tel. (11) 2799-7999, 44,90 reais
John Locke, coleção Os Pensadores, 320 págs., Ed. Nova Cultural, tel. (11) 3039-0933 (edição esgotada)
Locke e a Educação, Clenio Lago, 130 págs., Ed. Argos, tel. (49) 3321-8218, 21,20 reais
http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/explorador-entendimento-humano-423338.shtml?page=3
Assinar:
Postagens (Atom)






