Mostrando postagens com marcador Novas tecnologias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Novas tecnologias. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O uso de tecnologias pode revolucionar a educação?

Aproveite a febre dos tablets, aplicativos e lousas digitais para discutir com os alunos os efeitos da tecnologia no ensino. Será que a revolução digital é mesmo um grande passo em direção à educação de qualidade? 
lousa eletrônica
Objetivos - Entender o conceito de tecnologia.
- Identificar aspectos negativos e positivos da tecnologia.
- Identificar e entender em que medida a tecnologia pode contribuir para a melhoria do ensino.
Conteúdo- Introdução das novas tecnologias no universo escolar
- Discussão sobre a crença social no poder da tecnologia

Tempo estimado Três aulas

Material necessário - Cópias do artigo "A tecnologia não nos salvará (por enquanto)", publicado em Veja (Edição 2261, 21 de março de 2012)
 - Cópia do filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, para o professor.
Desenvolvimento Aula 1 Divida a classe em grupos e solicite aos alunos uma leitura atenta da matéria da revista Veja. Peça que identifiquem as principais ideias contidas no texto e os argumentos fundamentais do autor. Em seguida, proponha uma discussão indagando se concordam ou não com as ideias apresentadas.
Observe que, provavelemente, boa parte da classe, assim como uma significativa parcela da sociedade, considera o desenvolvimento de novas tecnologias um progresso inestimável com efeitos benéficos e positivos para todos. Aproveite para contar aos alunos que essa concepção é reforçada pela ideia de que as tecnologias ajudariam a resolver inúmeros problemas que há tempos afligem a humanidade.
Questione se a turma concorda ou não com essa visão e, a fim de estimular a reflexão e a discussão, e veja quais são as teorias que a classe já tem sobre a possibilidade de a tecnologia ter efeitos sociais negativos. Aproveite para questioná-los sobre a ideia de progresso: de fato o progresso resulta do desenvolvimento tecnológico? os progressos existentes beneficiam igualmente todos os setores da sociedade? Um bom exemplo para encaminhar este debate é levá-lo para um campo mais prático, como o da medicina: o desenvolvimento de aparelhos médicos ultra-modernos garantem pleno acesso à saúde ou beneficia apenas uma parcela minoritária da população, já que encarece o tratamento médico?
A partir das respostas fornecidas aos alunos, explique que essa valorização da tecnologia resulta do papel fundamental que ela desempenha na vida econômica e social em todos os lugares. Explique, por exemplo, que o fenômeno da globalização só foi possível graças ao desenvolvimento tecnológico. 
Demonstre também como os novos instrumentos tecnológicos resultantes da terceira revolução industrial - a da microeletrônica  nos anos 80 - ajudaram a suprimir as distâncias e a acelerar o tempo, além de obrigarem os trabalhadores de todas as partes a desenvolverem novas habilidades.
Mostre também que muitos desses aparelhos provocaram enormes mudanças em nossos hábitos e cultura, como é o caso do celular , do vídeo e dos computadores pessoais conectados à internet.
Explique que essa visão preocupa hoje muitos pesquisadores de várias áreas do conhecimento e que, por esse motivo, muitos deles começaram a pesquisar os efeitos da tecnologia a fim de verificar se eles são sempre positivos ou benéficos ou se, ao contrário, apresentam efeitos perversos ou negativos.
Mostre que um desses pesquisadores, chamado Herbert Marcuse, afirma que a técnica se distingue da tecnologia por existir em todas as sociedades. A fim de entender melhor a distinção, proponha uma reflexão sobre como a humanidade trabalhava ou produzia nas sociedades pré-capitalistas.

Pergunte, por exemplo, que instrumentos utilizava na atividade agrícola e como os fabricava, já que não existiam máquinas. Questione que tipo de conhecimento era necessário para produzi-los e se estes sofriam mudanças constantes ou não.
Aproveite as respostas fornecidas e examine o caso da enxada, destacando o caráter artesanal de sua fabricação e como sua forma permaneceu basicamente a mesma até a atualidade. Indague se esse instrumento pode ser considerado uma extensão do corpo humano ou não. Solicite ainda que justifiquem a resposta.

Em seguida, aproveite as respostas fornecidas para explicar o que é a tecnologia. Mostre que ela começou a existir apenas na sociedade capitalista, sendo fruto da revolução cientifica e da revolução industrial. Explique o significado dessas revoluções e pergunte por qual motivo seria necessário produzir mais mercadorias em menos tempo.

Sempre aproveitando as respostas fornecidas, indague o que é uma máquina e o que é necessário para produzi-la. Aproveite para realçar a diferença entre experiência e ciência. Questione como o trabalhador se relaciona com a máquina, indagando se ela respeita ou não o ritmo biológico do corpo humano ou se, ao contrário, ele tem de se adaptar ao ritmo dela, que é mecânico. Estimule agora uma comparação entre a máquina e a enxada a fim de aclarar as diferenças entre elas e, dessa maneira, entre a técnica e a tecnologia.

Indague também se uma máquina opera isoladamente ou apenas em relação a outras máquinas. Aproveite para comentar como a organização delas na fábrica é planejada e não casual e chame a atenção da turma para a observação desse aspecto no filme Tempos Modernos, que será exibido na próxima aula.

Aula 2A fim de tornar claro o que foi discutido e analisado na aula anterior, exiba aos alunos o filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Solicite atenção especial para as cenas e as sequências em que o personagem aparece trabalhando na linha de montagem de uma indústria e em seguida proponha uma discussão sobre as características desse tipo de processo de trabalho e para apontarem os efeitos negativos das máquinas na vida dos operários. 
Aula 3Retome a análise e a discussão das aulas 1 e 2 e aproveite para explicar que a tecnologia seria um processo social que tem como objetivo dominar a natureza a fim de aumentar a produção econômica. Mostre que, em muitos casos a tecnologia não está somente à serviço do bem estar dos cidadãos ou dos trabalhadores, como o filme Tempos Modernos deixa claro, mas também -e, na maioria dos casos -  vinculadas à produção econômica.
Além disso, explique que os aparelhos tecnológicos modernos, destinados ao consumo civil e doméstico, apresentam uma qualidade nova em relação aos produtos tecnológicos resultantes da segunda revolução industrial. Enquanto aqueles eram, em geral, destinados a substituir o trabalho humano no universo doméstico, como geladeiras, máquinas de lavar roupa e louça, etc, os produtos que surgem com a revolução da microeletrônica, são destinados tanto ao trabalho, quanto ao lazer.
Questione se o uso intensivo desses aparelhos, que são usados em larga escala pelos jovens, apresenta sempre efeitos positivos ou se, ao contrário, interferem negativamente tanto no desempenho escolar quanto no processo de sociabilidade, visto que seus usuários preferem se comunicar por meio de tais aparelhos em vez de manter um contato real com os outros.
Proponha uma discussão e uma reflexão coletiva sobre isso indagando também quantas horas por dia, em média, seus usuários ficam defronte a tais aparelhos.
Explique também que o consumo intensivo dessas novas tecnologias pode inclusive viciar seu usuário porque elas oferecem uma espécie nova de diversão baseada na saturação de estímulos, que são cada vez mais intensos e acelerados, acabando assim por excitar desmedidamente a sensibilidade.
A fim de completar o raciocínio, mostre que tais aparelhos tecnológicos exigem uma adaptação por parte de seus usuários e que nesse processo eles os moldam e os adestram, de maneira que estes se tornam objetivamente dependentes da tecnologia para executar tarefas básicas. Destaque que com isso os indivíduos podem se isolar, dependendo menos de outros indivíduos.
Em seguida, proponha uma discussão sobre as consequências da introdução em larga escala desses aparelhos tecnológicos na escola e indague se eles poderiam contribuir decisivamente para a melhoria do ensino.
A fim de estimular e orientar o debate, explique qual é o objetivo do processo educativo e o que se entende por "formação".
Destaque e pergunte se o alunos concordam que os objetivos da escola são:
a) estimular a intensificação do processo de socialização;
b)desenvolver o indivíduo tanto intelectual quanto emocionalmente;
c) torna-lo apto a pensar e a agir racionalmente;
d) oferecer conhecimentos que possam auxiliá-lo a se inserir no mercado de trabalho como trabalhador qualificado;
e) estimular o desenvolvimento de atitudes e hábitos democráticos que reforcem sua atuação como cidadão responsável e crítico, capaz de atuar em defesa da justiça social.
Retome a discussão inicial da primeira aula e discuta novamente os principais argumentos apresentados pela matéria de Veja. Indague se a introdução das novas tecnologias no universo escolar pode de fato contribuir para a melhoria do ensino ou se, ao contrário, os governos promovem sua inclusão por motivos econômicos e, ao mesmo tempo, para agradar a sociedade, já que esta sustenta uma crença ingênua no poder e alcance dela.
Mostre como essa crença, sem questionamentos, pode levar o país e seus jovens a  impedir uma reivindicação real e efetiva na melhoria do ensino, que passa tanto pela valorização do professor e de sua atuação em sala de aula, quanto pelo processo educativo presencial.
Conclua o raciocínio mostrando que as novas tecnologias podem ser instrumentos importantes na formação e podem ser utilizadas no ambiente escolar, mas apenas na medida em que complementem o trabalho formativo do professor e da aula presencial.
Por fim, peça a elaboração de uma redação sobre o assunto.
AvaliaçãoVerifique se os trabalhos entregues são coerentes e se as ideias estão bem concatenadas. Analise, também, se a expressão verbal está correta e adequada e se os estudantes revelam entendimento do assunto discutido em sala. Leve em conta a participação do aluno nas discussões e observe se ele compreende tanto a ambiguidade da tecnologia quanto o papel formativo da escola.
Consultor Débora Carvalho
Mestre e Doutora em Sociologia pela Unesp. Professora de Sociologia da Universidade Federal de Lavras. Autora de livro didático de Sociologia

terça-feira, 28 de maio de 2013

A conexão que faz a diferença. Mesmo

Especialistas alertam: adquirir equipamentos de ponta é muito mais fácil do que efetivamente se apropriar das novas possibilidades de construção do conhecimento

Dadas as dimensões continentais de nosso país, a tecnologia tem um papel fundamental na articulação de municípios longínquos, na troca de experiências e na construção de saberes que podem ser ministrados a distância. Para Fernando Almeida, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo e responsável pela logística dos módulos não presenciais da Escola de Gestores, um programa do Ministério da Educação (MEC), a tecnologia é também uma forte aliada do diretor no cotidiano escolar: "Ela possibilita disponibilizar um grande número de dados com transparência, prestar contas, controlar as notas de alunos e a presença dos professores e permite que qualquer outra informação seja colocada em rede aberta." O domínio da internet e de programas de edição de texto, de apresentação de dados e de tabulações é parte importante dos cursos de reciclagem de diretores oferecidos no país.
Projeto Um Computador para Cada Aluno, em Porto Alegre: o que importa não é melhorar o ensino, mas a aprendizagem. Foto: Tamires Kopp
Projeto Um Computador para Cada Aluno, em Porto Alegre: o que importa não é melhorar o ensino, mas a aprendizagem
Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, doutora em Educação e coordenadora do programa de Gestão Escolar e Tecnologias, desenvolvido pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, afirma que as escolas não exploram todo o potencial que a tecnologia oferece. "É nesse contexto que surge a importância da formação não só para o professor mas também para os funcionários, para que a tecnologia não seja utilizada só em sala de aula, mas faça parte do coletivo."

Na prática, a especialista explica que é preciso que o educador atribua sentido aos equipamentos em seu trabalho. É só a partir do momento em que incorporamos as novas mídias que valorizamos seu uso (leia mais no quadro abaixo). "Temos hoje boas bases informatizadas que foram criadas pelas próprias Secretarias de Educação com o intuito de facilitar o acompanhamento de dados escolares, como desempenho de alunos, índices de aprovação e evasão. No entanto, de nada adianta o diretor alimentar essas bases se, quando alguém solicita alguma informação, ele acha mais fácil procurar num papelzinho."

Léa Fagundes, coordenadora do Laboratório de Experiências Cognitivas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é uma das pioneiras na pesquisa sobre a aplicação da tecnologia na Educação no Brasil. Há mais de 20 anos, ela desenvolve projetos na área, como o programa Um Computador por Aluno, que consiste no uso de um laptop educativo por estudante matriculado em escola pública, além de seus educadores. Segundo ela, o problema é que os computadores, a programação deles, os sistemas digitais e suas possibilidades são pensados pela escola e pelos educadores para melhorar o ensino e não para melhorar a aprendizagem, ou seja: para conservar, não para transformar a escola. "Primeiro, tivemos os CAIs (sigla em inglês para Instrução Apoiada no Computador), depois os softwares educacionais, a seguir os CD-ROMs, os tutores inteligentes e, a grande novidade, os objetos de aprendizagem. Mas essas novas tecnologias de informação e comunicação não trazem problemas para os cidadãos e para a sociedade? Não estão a requerer mudanças de atitudes, desenvolvimento de novas competências e a vivência de valores éticos e morais?", questiona Léa. "Os alunos e professores precisam se apropriar da tecnologia tanto no que se refere ao uso do computador e da internet como de outras ferramentas de comunicação e informação", enfatiza.

Comunidade e conectividade

- Ninguém pode ficar de fora da inclusão digital na escola. A função do gestor e do professor é envolver todos nesse processo.

- Produza um site como um espaço de diálogo de toda a comunidade escolar. Divulgue nele as reuniões e os eventos para atrair a atenção dos pais e, com essa interação, promova debates sobre temas ligados à escola.

- Desenvolva as etapas passo a passo nesse tipo de projeto, fazendo o planejamento e compartilhando o registro com a comunidade escolar. É muito importante garantir a noção de coletividade.

- Permita que os pais acompanhem a vida escolar dos alunos, crie grupos de aprendizagem e ofereça a formação continuada aos professores - tudo via internet. Como os encontros presenciais são cada vez mais difíceis hoje em dia por causa da falta de tempo, aproveite a tecnologia para promover essas reuniões virtuais.
 


O uso de diferentes linguagens de mídia na escola pode ser um caminho para promover mudanças de atitudes e de metodologias de trabalho. "O professor se especializar para melhorar sua didática é insuficiente hoje, pois, como já dizia Paulo Freire, se ele tem uma prática bancária, autoritária, provavelmente vai usar as novas mídias para reafirmá-la", diz Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE-USP).

Por isso, é importante que a capacitação dos educadores e gestores para o uso da mídia se dê em conjunto com a comunidade escolar. Para Ismar, "não é com base na tecnologia que nasce o aprendizado, mas com uma gestão participativa do processo".

No ano passado, o MEC deu início a um curso de formação chamado Mídias na Educação - mais de 15 mil professores participam da primeira fase. O programa trabalha com as quatro linguagens - mídias impressa, digital, audiovisual e radiofônica. Há também um módulo de gestão. O NCE-USP é uma das instituições parceiras do ministério nesse curso. "O objetivo é fazer os educadores refletirem sobre como podem usar a tecnologia para ensinar melhor", explica Ismar.
Ismar Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da USP. Foto: Marcos Lima
Ismar Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da USP
O especialista dá dicas de como é possível fazer essa apropriação. Ele cita algumas escolas municipais de São Paulo que participaram do projeto Educom.radio, desenvolvido pelo NCE-USP entre 2000 e 2004, e fizeram uso do rádio como uma ferramenta de gestão. Para atrair os pais, em vez de enviar comunicados por escrito, dirigentes e professores motivaram os alunos a produzir programas de rádio com temas de interesse da comunidade e a divulgação de eventos e reuniões. "Com isso, além de os alunos se sentirem parte do processo, os pais passaram a comparecer aos encontros e a participar mais, pois se empolgavam ao ouvir o programa feito pelos filhos - que eram levados para casa em fita cassete. Após essa experiência, as escolas descobriram que muitos pais eram analfabetos e, por isso, não atendiam ao que era pedido nos bilhetes", lembra Ismar.

"Se o professor tem uma prática autoritária, provavelmente vai usar as novas mídias para reafirmá-la."

Para motivar a mudança de atitude dos educadores em relação ao uso da tecnologia, o MEC criou uma nova plataforma de interação: o Portal do Professor (saiba mais sobre o projeto no quadro ao lado). "Nós observamos que levar a chamada cultura da informática para as escolas não é suficiente. O maior trabalho é a instalação dessa cultura", avalia o secretário de Educação a Distância do MEC, Carlos Eduardo Bielschowsky.

Quando Maomé vai à montanha

Pioneirismo: a tecnologia foi fundamental para desenvolver a capacidade de comunicação de alunos surdos na EEF Helen Keller, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. Foto: Tamires Kopp
Pioneirismo: a tecnologia foi fundamental para desenvolver a capacidade de comunicação de alunos surdos na EEF Helen Keller, na cidade gaúcha de Caxias do Sul
A EEF Helen Keller, de Caxias do Sul, a 100 quilômetros de Porto Alegre, é um exemplo de pioneirismo na aplicação da tecnologia em seus processos de ensino e aprendizagem. Ali estudam cerca de 180 crianças surdas. Em meados da década de 1990, quando ainda não se falava em internet, a professora Mônica Duso de Oliveira participou da implantação de um programa de novas mídias - com o apoio de educadores da UFRGS. "Instalamos uma antena de radioamador que permitia a esses estudantes surdos trocar mensagens em tempo real usando computadores", fala.

Inovadora, essa prática logo gerou resultados. "A alfabetização em língua portuguesa é uma grande dificuldade para o surdo, mas, ao trocar mensagens, eles aprimoraram a escrita de forma eficiente", diz Mônica. Ela ressalta que todos os alunos daquela época atualmente estudam em universidades e escrevem com perfeição.

Carilissa Dall´Alba, 23 anos, fez parte desse grupo. Entrevistada via e-mail, ela mostrou facilidade na comunicação escrita e diz guardar muitas boas lembranças da escola. "Eu tinha uns 10 anos. Lembro que estava na frente de um computador bem velho, a tela era preta, e as letras, amarelas. Com o bate-papo, eu consegui me comunicar pela primeira vez com os surdos de outra cidade. Fiquei muito feliz."

Para Carilissa, a comunicação foi fundamental para desenvolver a escrita: "A comunidade surda é pequena. Para mim, todo deficiente auditivo deveria saber usar a internet e poder conhecer os surdos de outros lugares. Isso é muito importante". Atualmente, ela freqüenta dois cursos universitários: Letras e Psicopedagogia.

Sites de relacionamento também se tornaram aliados dos professores da escola gaúcha. "Comecei a dar aulas no ano passado na Helen Keller e no início senti dificuldades em me aproximar dos alunos. Naquele momento, tive a idéia de adicioná-los no orkut para trocar mensagens. Isso fortaleceu nossos vínculos e, desde então, estimulo essa comunicação. É incrível ver como eles aprimoram a escrita", constata a professora Izabel Cristina Lopes. Em suas aulas de Matemática, a internet também é parceira: "Os jovens resolvem exercícios virtuais".

E quando a montanha vai a Maomé

 
Trabalho colaborativo: educadores da EEEF Luciana de Abreu, na capital gaúcha, usam a tecnologia para melhorar o ensino e a aprendizagem. Foto: Tamires Kopp
Trabalho colaborativo: educadores da EEEF Luciana de Abreu, na capital gaúcha, usam a tecnologia para melhorar o ensino e a aprendizagem
Não tão distante de Caxias do Sul, na EEEF Luciana de Abreu, na capital gaúcha, a aplicação da tecnologia é um desafio que surgiu recentemente graças ao projeto Um Computador por Aluno. Iron Rodrigues Otaña, que dirige a instituição desde 1983, conta que a escola nem tinha sala de informática: "Fomos escolhidos por causa da base pequena de alunos, 400 de Ensino Fundamental, o que garantia que o número de computadores seria suficiente para todos os estudante e professores". Na prática, Iron reconhece que tanto os gestores como os professores aprenderam muito com as máquinas. "O bacana é ver a gurizada fazendo seus projetos e participando mais da aula por causa da tecnologia. Confesso que esse não é um processo fácil. Alguns professores foram resistentes, mas posso garantir que vale muito a pena." .

A professora de Língua Portuguesa Janina Antonioli Pires, 24 anos, destaca que não basta garantir os equipamentos para melhorar a aprendizagem. "Trabalhar numa sala onde os alunos têm laptops em mãos nos faz ter uma maneira nova de pensar o mundo. A internet é uma ferramenta sem limites. É preciso trabalhar com projetos, incentivar o jovem a ser autor dos trabalhos, pesquisar, buscar conteúdos", explica.

Gestão compartilhada
Léa Fagundes, coordenadora do Laboratório de Experiências Cognitivas da UFRGS. Foto: Tamires Kopp
Léa Fagundes, coordenadora do Laboratório de Experiências Cognitivas da UFRGS
As plataformas digitais também podem ir além da sala de aula e servir de espaço de comunicação entre a comunidade escolar. A prefeitura de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, lançou no início do ano o portal www.educacao.saobernardo.sp.gov.br, que permite aos educadores, alunos e pais acesso a todos os indicadores da rede - inclusive ao planejamento pedagógico. "A interatividade virtual é baseada em comentários livres, que podem ser feitos no portal e são dirigidos diretamente à unidade escolar. Internamente, há um fórum de discussões disponível para todos os funcionários, em que os educadores trocam informações", explica a chefe da Divisão de Ensino Fundamental e Infantil da Secretaria de Educação e Cultura da cidade, Kathia Maria de Carvalho Diniz.

"Alunos e professores precisam se apropriar da tecnologia. Não há por que usar novos recursos para reproduzir o tradicional."

A Secretaria oferece capacitação tecnológica para os educadores da rede municipal e os gestores fazem o acompanhamento virtual de desempenho e freqüência dos alunos. "Os professores também são motivados a trabalhar com blogs educativos. A Escola Padre Fiorente Elena, por exemplo, publica produções de rádio na internet."

Na mesma linha de interatividade, o Instituto Ayrton Senna criou o portal www.escolaconectada.org.br, no qual os internautas podem debater temas pertinentes à Educação, trocar experiências e criar blogs. Foi o que fez Dagmar Lourena, da EM Prof. Auxiliadora Paiva, em Araxá, a 374 quilômetros de Belo Horizonte. No blog, ela posta seus projetos pedagógicos e tem um espaço de interatividade com os alunos, que também são motivados a escrever.

O instituto também desenvolveu o Sistema Ayrton Senna de Informações, uma ferramenta de gestão que permite acompanhar o desempenho de cada um do 1,5 milhão de estudantes que participam de seus programas em todo o país. "Acompanhamos dez indicadores, como lição de casa, número de livros lidos, freqüência de alunos e professores, alfabetização na 1ª série, aprovação e cumprimento dos 200 dias letivos de aula. Isso ajuda a prevenir e antecipar problemas", explica a diretoraexecutiva Margareth Goldemberg. Se alguém falta, por exemplo, a equipe do instituto entra em contato com a família ou a escola para ver o que está acontecendo.

As possibilidades são ilimitadas, mas Léa Fagundes é taxativa: "Não há por que usar novos recursos para reproduzir o tradicional". Mais do que adquirir máquinas, o importante é fazê-las funcionar como uma alavanca para desenvolver novas maneiras de aprendizagem.

Professor online

Todo professor hoje sabe que a internet é uma importante ferramenta de trabalho. Essa "ajuda" tecnológica não se restringe a páginas de notícias e à possibilidade de realizar pesquisas sobre os mais variados assuntos, mas também para encontrar materiais para fazer o planejamento de suas aulas e trocar experiências com colegas. NOVA ESCOLA lançou no mês de maio uma área especialmente dedicada a profissionais em busca de boas idéias de seqüências didáticas. A seção de planos de aula oferece 400 opções de atividades com grande diversidade de temas, desenvolvidas por consultores de todas as disciplinas e âmbitos para Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Além disso, o professor tem acesso a vídeos com entrevistas de especialistas, registro de atividades em sala e o passo-a-passo da construção de jogos educativos e brinquedos, por exemplo. Há ainda o Ponto de Encontro, em que o professor pode participar de comunidades virtuais e criar sua própria, propondo discussões sobre a prática docente a usuários de todo o Brasil.

Outra boa opção na rede é o Portal do Professor, do MEC, que oferece roteiros de aulas pré-desenvolvidas e também a possibilidade de o internauta incluir seu plano de aula no site. Há ainda a ferramenta Moodle, um software livre para a criação de comunidades virtuais em que se pode participar de cursos online e fóruns, entre outros recursos. Não é necessário fazer o download do programa, basta se cadastrar e acessar. Neste site, pode-se acessar um tutorial de como usar a ferramenta.

 

Seis características do professor do século 21

Conheça  profissionais que já incorporaram as qualidades do novo educador à rotina e comprovaram que se aperfeiçoar faz toda a diferença na aprendizagem da turma.

 

 Ter boa formação

Foto: Natty Canto
Mariléa Giacomini Arruda

O mestrado é o caminho natural

"Eu me formei em Letras há 20 anos e, assim que fiquei frente a frente com os alunos, percebi que não estava preparada para tantos desafios didáticos. Logo me dei conta de que os bons educadores, aqueles que realmente fazem a turma aprender, são os que não param de estudar. Comecei procurando textos para ler por conta própria. Levava esse material para a escola e discutia sobre ele com a equipe. Isso não só me ajudou a dominar cada vez mais o conteúdo curricular como também me deu ferramentas para pensar em novas formas de abordá-lo durante as aulas. Para me aperfeiçoar ainda mais, senti que precisava voltar à universidade. Optei por cursar um mestrado em Língua Portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Estudei a questão gramatical, o que me deu embasamento para trabalhar o tema com meus alunos de 5ª a 7ª séries. No início da carreira, eu tinha uma visão mais tradicionalista. Valorizava apenas a parte formal da gramática, acreditando que os estudantes deveriam saber de cor o que é um advérbio e um adjetivo. Quando passei a ter acesso à bibliografia sobre o tema, percebi que mais importante é eles compreenderem a função desses elementos na construção do sentido do texto. Eu também tinha uma noção simplista de certo e errado até entender a lógica dos ditos erros gramaticais dos alunos. A integração entre o mestrado e a experiência em sala de aula leva a reflexões sistemáticas que eliminam barreiras entre a teoria e a prática. Acredito que a boa formação é o caminho para a Educação pública dar um salto de qualidade. Só assim os educadores vão dominar os conteúdos, fazer um planejamento de acordo com as diretrizes da rede e a realidade dos alunos e avaliar a própria prática. Sinto cada vez mais confiança em relação a meus conhecimentos e, quanto mais estudo, mais percebo como isso é imprescindível para ensinar bem."

Mariléa Giacomini Arruda , 57 anos, professora de Língua Portuguesa na EMEF Antonio Sampaio Dória, em São Paulo, SP
Diploma para todos
Graduação para os que ainda não se formaram e pós para os demais - assim se persegue a qualidade

1996 A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) determina que os docentes devem ter curso superior. O médio vale para Educação Infantil e anos iniciais.

2001 O Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece metas para ampliar a oferta em cursos de mestrado e doutorado para professores da Educação Básica

2006
É instituído o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) com cursos a distância para levar a graduação aos professores dos rincões do país.

2007
Fim do prazo para que somente fossem admitidos professores com nível superior ou formados por treinamento em serviço, como previsto na LDB.

2009
Termina o prazo para que os estados elaborem planos de carreira docente. Muitas redes preveem salário maior para mestres e doutores.

2010
O Senado aprova a obrigatoriedade do nível superior para lecionar na pré-escola e nas séries iniciais. O projeto ainda tramita na Câmara dos Deputados. 

FONTE:http://revistaescola.abril.com.br/formacao/formacao-continuada/seis-caracteristicas-professor-seculo-21-602329.shtml?page=0

 Usar as novas tecnologias

Foto: Suzete Sandini

Flaviana Meneguelli

Um recurso a favor dos conteúdos

"Leciono Matemática há 12 anos e sempre acreditei que a tecnologia pode facilitar o ensino. Ainda hoje, no entanto, alguns educadores não se sentem capacitados para aproveitar o recurso e outros, empolgados, fazem uso dele em qualquer atividade sem planejamento. Infelizmente, em ambos os casos, saem perdendo os alunos e os próprios professores, que deixam de ter a seu favor uma ferramenta de ensino essencial. Aprendi a importância de analisar quais conteúdos podem ser ensinados com o auxílio da tecnologia. Com isso, além de aprimorar nossa prática, damos oportunidade aos estudantes de desenvolver habilidades tecnológicas básicas no mundo de hoje, como saber usar um editor de texto e uma planilha. O mestrado em uso das tecnologias, que fiz na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), me deu meios para trabalhar com mais qualidade alguns conceitos matemáticos. Com as turmas da 6ª série para as quais leciono atualmente, por exemplo, passei a usar planilhas eletrônicas no trabalho com operações e, principalmente, de tratamento da informação e porcentagem. Os alunos fazem cálculos nas planilhas e depois criam gráficos que melhor representam os resultados obtidos. Os recursos disponíveis hoje não se aplicam só à minha disciplina. Na escola em que atuo, há professores de Língua Portuguesa que conjugam o ensino de novos gêneros, como blogs e fotologs, à produção de texto. O fato é que nossos alunos são formados dentro da cultura digital e profundamente influenciados por ela. Com a democratização do uso da internet, o crescimento do número de lan houses, o barateamento dos computadores e mesmo a implantação de programas de governo destinados à informatização das escolas, não há por que trabalhar usando somente o quadro e o giz. Cabe a nós entender como se dá esse processo e nos atualizar de forma a desafiar os estudantes."

Flaviana Meneguelli, 32 anos, professora de Matemática na Escola Básica Municipal Intendente Aricomedes da Silva, em Florianópolis, SC
Mais computadores nas escolas
A orientação atual é usar essa ferramenta como meio, e não como fi m em si mesma

1981 É realizado na Universidade de Brasília (UnB) o Primeiro Seminário Nacional de Informática na Educação, com apoio do Ministério da Educação (MEC).

1989 O MEC institui o Programa Nacional de Informática na Educação (Proninfe) para desenvolver a informática educativa e seu uso nas redes.

1997
O Programa Nacional de Informática na Educação é rebatizado de Proinfo e prevê laboratórios de informática nas escolas.

2009
Pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC) mostra que 73% das escolas estaduais têm laboratório de informática, e 83%, banda larga. 

 Atualizar-se nas novas didáticas

Foto: Beto Figueiroa
Sandra de Amorim Silva Cavalcanti

Um jeito de ensinar cada disciplina

"Quando assumi uma sala de aula pela primeira vez, senti dificuldade por não ter um grande domínio das didáticas. Na faculdade, procurei aprender o máximo sobre isso e, como leciono nas primeiras séries do Ensino Fundamental, tenho de me preparar em todas as áreas. O trabalho com Língua Portuguesa é estratégico nesses anos iniciais. Para dar conta disso, assim que terminei a graduação, já estava fazendo uma extensão universitária sobre práticas de leitura na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Também me aprimorei em relação à escrita num curso que abordou as situações didáticas fundamentais na alfabetização. Nunca perco as formações oferecidas pela rede e esse foi o meio de me atualizar em relação à didática da Matemática. No curso, conheci as últimas pesquisas sobre o tema, entendi como as crianças aprendem e de que forma encaminhar as atividades para facilitar a aprendizagem. Participei ainda de cursos em História, Geografia e Arte. Faz toda a diferença no dia a dia na sala de aula ter contato com as obras de autores consagrados e se aprofundar nas didáticas específicas. Para resolver outra demanda essencial - ensinar alunos com deficiência -, fiz um curso de pós-graduação em Psicopedagogia. Com as aulas, aprendi formas de interagir com eles e a identificar que atividade é mais eficaz para cada tipo de dificuldade. Invisto muito do meu tempo em todos esses cursos, mas isso acaba facilitando meu trabalho e me fornece instrumentos para enfrentar as dificuldades em sala. Hoje tomo decisões com mais segurança e, quando vejo o quanto os estudantes estão avançando, percebo que estou no caminho certo. Os resultados da Prova Brasil mostram o impacto da formação no meu trabalho: as notas da minha sala são muito maiores do que as médias nacional, estadual e municipal."

Sandra de Amorim Silva Cavalcanti, 29 anos, professora na EM Professor Aderbal Galvão e coordenadora de projetos da rede municipal do Recife, PE
Diretrizes curriculares mais precisas
Cada vez mais o ensino se baseia nos estudos sobre como as crianças aprendem

1970 São publicadas no Brasil as primeiras obras de Jean Piaget (1896-1980) sobre o desenvolvimento infantil, abrindo as portas para o estudo das didáticas.

1988 São lançados os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), contendo orientações didáticas relativas a todas as disciplinas.

1999
O MEC elabora o Referencial Curricular para a Formação de Professores, com orientações para o trabalho com as didáticas de cada disciplina.

2008
A rede municipal de São Paulo lança orientações curriculares baseadas nas últimas pesquisas didáticas e é seguida por outras redes. 

 Trabalhar bem em equipe

Foto: Marina Piedade
Patrícia Lemes Mullin

Na troca de ideias, todos ganham

"Sou professora há mais de 17 anos e hoje tenho total clareza de que, conversando com os demais professores e com a orientadora pedagógica, é possível descobrir formas mais eficazes de ensinar. Na minha escola, o trabalho em equipe realmente funciona. Há mais de uma turma de crianças da Educação Infantil da mesma idade, o que permite compartilhar informações sobre um mesmo programa. Juntos, planejamos as atividades, analisamos o que funcionou ou não e pensamos no que é preciso fazer para melhorá-las. Além disso, semanalmente, me reúno com a orientadora pedagógica, que me ajuda a ver problemas nas estratégias que estou usando e me faz refletir sobre pontos importantes do desenvolvimento das crianças. O relacionamento também ocorre com os colegas que lecionam em outros níveis. Fazemos avaliações individuais dos pequenos em cada eixo curricular e registramos em que cada um precisa se desenvolver mais. No fim do semestre, essas informações são compartilhadas com o professor que vai acompanhar a turma no ano seguinte. Assim, ele fica sabendo quem é cada um, o que sabe, que dificuldades apresenta e os pontos que necessitam de atenção. Os pais são outros grandes aliados no processo de ensino e aprendizagem. Aproveitamos que eles trazem o filho e conversamos sobre a participação dele em sala. Quando a criança apresenta alguma dificuldade, logo eles são avisados para que possam acompanhar de perto. Orientamos sobre como pode ser a ajuda em casa porque, afinal, eles não são educadores e não sabem exatamente como fazer isso. Nas reuniões de pais, que são periódicas, explicamos nossa concepção de trabalho para que entendam como diferentes atividades favorecem o ensino da leitura, entre outras habilidades. Quando todos - família, professores e gestores - se envolvem, a criança sempre ganha."

Patrícia Lemes Mullin, 39 anos, professora de pré-escola na EMEI Professora Marianita de Oliveira Pereira Santos, em São José dos Campos, a 91 quilômetros de São Paulo
O fim do planejamento solitário
A troca de experiências com colegas e coordenadores é cada vez mais incentivada para aprimorar a prática

1961 A primeira LDB prevê a existência de orientadores e supervisores na escola, que deveriam ter no mínimo fomação no curso Normal.

1990 As redes passam a ver o coordenador como responsável pelo trabalho pedagógico e por aprimorar a técnica de ensino. O gestor deve aproximar a família da escola.

1996
A LDB determina que as redes reservem algumas horas (remuneradas e incluídas na jornada) para a equipe estudar e planejar as aulas coletivamente.

1998
Com os PCNs e o Projeto Político Pedagógico (PPP) construído coletivamente pelas escolas, o coordenador passa a auxiliar melhor a equipe.

2008
A Lei do Piso Salarial do Magistério propõe o mínimo de 1/3 da jornada para formação, o que está sob análise do Supremo Tribunal Federal.

2010
Diversas redes, como a estadual de São Paulo, a maior do país, reservam 1/3 da carga horária dos professores para a formação em serviço. 

 Planejar e avaliar sempre

Foto: Tamires Kopp
Greicy Silva

Observar para reorientar o trabalho

"Comecei a dar aula aos 18 anos, enquanto cursava o Magistério. Na época se falava pouco de planejamento. Avaliação era sinônimo de prova e nada mais. Foi na licenciatura em Matemática que entendi a importância de usar meios avaliativos para checar o que de verdade os alunos aprenderam e, com isso, verificar a qualidade e a consistência das estratégias de ensino para reorientar o trabalho em sala. Minha escola tem um currículo bem estruturado e sei quais são as expectativas de aprendizagem para cada conteúdo. Como leciono para o 6º ano, ter clareza do que os alunos dominam em relação ao programa do segmento anterior é fundamental para garantir que eles acompanhem o andamento das atividades. Começo sempre com uma sondagem e, com base nesse levantamento, programo maneiras de retomar o que não foi aprendido. Na hora de introduzir um conteúdo, proponho situações diversas antes de entrar na teoria propriamente dita, definindo estratégias e fórmulas e sistematizando o que vimos na prática. Durante todo o ano, vão se alternando os momentos de planejamento, as aulas e a avaliação - que não se baseia apenas em provas. Observo e registro as estratégias usadas pelos alunos, as dificuldades e os avanços deles, além de olhar os cadernos. Assim, procuro não deixar as dúvidas se acumularem e logo intervenho. Quando identifico alunos com dificuldades, me concentro em ajudá-los, enquanto quem está em dia com a matéria se ocupa de outras atividades. Trabalhos em grupo, durante as quais os colegas se ajudam, também são essenciais. Algumas vezes, como lição de casa, proponho desafios complexos para a garotada. Isso me ajuda a ver até que ponto todos entenderam o que foi visto e se conseguem usar um conhecimento em diferentes contextos. Esse é mais um jeito de aproveitar da melhor maneira o potencial da turma e tornar meu trabalho ainda mais produtivo."

Greicy Silva, 28 anos, professora de Matemática no Ciep Municipal Alexandre Bacchi, em Guaporé, a 200 quilômetros de Porto Alegre
Currículo e avaliação ganham destaque
Saber o que ensinar e checar a aprendizagem da turma constantemente são a base do trabalho docente

1990 É criado o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que permite às equipes escolares analisar a qualidade do ensino oferecido.

1996 Com a LDB, se intensificam as discussões sobre o currículo nas redes de ensino. O MEC passa a realizar encontros regionais e nacionais sobre o tema.

1998 
Os PCNs trazem a primeira tentativa de uma matriz curricular nacional ao dividir os conteúdos em eixos e explicitar os objetivos de cada área.

2000
O país participa pela primeira vez do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), possibilitando a comparação com outros países.

2005
É criada a Prova Brasil, que analisa o desempenho de todas as salas de aula da 4ª e 8ª séries, permitindo a professores e gestores avaliar o próprio trabalho.

2008
A rede municipal de São Paulo é a primeira a publicar orientações curriculares com expectativas de aprendizagem para cada disciplina. 

 Ter atitude e postura profissionais

Foto: Gilvan Barreto
Leandro Pereira Matos

Todos os alunos podem aprender

"Meu primeiro trabalho na rede pública foi com turmas de 6º, 7º e 9º anos e, no início, me senti desanimado. Os alunos eram indisciplinados, não tratavam bem uns aos outros e discutiam bastante. O contexto social em que viviam era difícil e cheguei a questionar se seria mesmo possível ensinar diante dessas circunstâncias. Mas, em vez de desistir, resolvi investigar melhor o porquê da indisciplina - e isso fez toda a diferença no meu trabalho. Percebi que, ao não se sentirem ouvidos, os jovens perdiam o interesse pelas aulas. Era necessário valorizar o que eles sabiam e, sobretudo, respeitar seu cotidiano. Fiz isso, por exemplo, quando discuti a situação dos negros hoje, traçando um paralelo com as questões históricas da escravidão. Ouvi o que pensavam sobre isso: muitos citaram o preconceito como um grande problema vivido por eles. Assim, a aprendizagem do conteúdo começou a fazer sentido e eles passaram a ficar mais atentos às aulas. Ainda assim, se surgia alguma briga, eu deixava claro que, como qualquer outro lugar, a sala de aula também tem normas de convivência. Em vez de impor regras, coloquei o tema em discussão e os atritos diminuíram. O que me fez mudar a postura foi a crença de que todos, independentemente de seu histórico e comportamento, têm a capacidade e o direito de aprender e, por isso, devemos sempre esperar o melhor de cada um. Todo docente deve analisar cada caso, olhar para as dificuldades de convivência, pensar em estratégias para sanar os problemas e criar o melhor ambiente para a aprendizagem. Envolver os pais nesse processo ajuda. Deixo claro para eles que é essencial mostrar aos filhos como se importam com a vida escolar deles. O que ocorre na sala de aula é reflexo da Educação como um todo. Para discutir com colegas sobre como as políticas públicas se afastam ou se aproximam do que o docente precisa, me tornei monitor no Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Essa reflexão deveria se estender a todos nós, professores, os principais interessados, juntamente com os alunos, na melhoria da qualidade do ensino."

Leandro Pereira Matos, 26 anos, professor de História na EM União da Betânia, em Juiz de Fora, a 276 quilômetros de Belo Horizonte
O professor se torna agente da educação
Investir no estudante e discutir políticas públicas também é papel de quem leciona

1960 Começa a ser discutido um novo conceito de Educação baseado na valorização do saber da criança e do professor como mediador da aprendizagem.

1990 Nessa década, com a chegada à rede pública de milhões de alunos que estavam fora do sistema, o professor tem de rever sua concepção de ensino.

1996
Ao possibilitar os ciclos no Ensino Fundamental, a LDB dá aos professores a chance de atender aos que necessitam de um tempo maior para aprender.

2005
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) permite ao professor acompanhar o desempenho de sua escola e da rede em que leciona.

É preciso ensinar os alunos a usar a tecnologia com consciência

Ensinar os jovens a fazer o uso adequado das ferramentas digitais os torna competentes na comunicação coletiva

 

O conhecimento de novas tecnologias ainda encontra resistências na escola. Enquanto alguns educadores temem que o uso da internet, de softwares educativos e de plataformas de ensino a distância prejudique o processo de aprendizagem, outros negam a existência desses recursos didáticos por desconhecer suas potencialidades.

As tecnologias contemporâneas permitem a construção de leituras inovadoras do mundo e ampliam as possibilidades de articulação, construção e circulação da informação. Aprendemos com o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) que os limites da nossa linguagem denotam os limites do nosso mundo. Quanto maior a diversidade de ferramentas dominadas pelo aluno, maior será seu território de ação.

Hoje, presenciamos a articulação de movimentos sociais e da sociedade civil por meio de sites, redes sociais, blogs etc. Não é possível ignorar a quantidade e a qualidade de informações que circulam nos espaços virtuais. É fascinante a variedade de textos, imagens e vídeos existentes na web. Ensinar a criança e o adolescente a se apropriar dessas novas linguagens é a única maneira de torná-los competentes para a comunicação coletiva. Toda escola deveria assumir o compromisso ético de proporcionar aos alunos o uso adequado dessas ferramentas, dando, assim, subsídios para que sejam capazes de filtrar as informações disponíveis, produzir conteúdos e conseguir articulá-los de forma reflexiva.

O orientador educacional e os demais gestores podem contribuir ao auxiliar as equipes a investigar a internet não apenas como uma ferramenta para o conhecimento, mas como uma aprendizagem em si mesma. A linguagem da rede mundial tem uma estrutura própria, com signos e significados que precisam ser compreendidos. É comum as pessoas - inclusive os alunos - identificarem o espaço virtual como sendo de caráter privado e divulgarem informações particulares sobre si ou outros colegas. Ocorre, porém, que isso não é verdade e os problemas de convivência ficam superdimensionados - o cyberbullying é apenas um exemplo dessa prática inapropriada.

Realizar uma pesquisa sobre o uso da internet pelos estudantes pode fornecer pistas interessantes. Investigar, por exemplo, qual o tempo destinado às tecnologias, quais os sites e as redes sociais mais frequentados, a natureza dos jogos preferidos etc. Esse levantamento ajudará a mapear a intensidade e a qualidade da utilização dos recursos tecnológicos pelos alunos, fornecendo parâmetros úteis para a análise pela equipe docente.

Nesse ponto, as escolas deveriam estabelecer uma meta: buscar compreender, nas reuniões pedagógicas ou em outros espaços formativos, as estratégias didáticas para a aprendizagem das linguagens oriundas das novas tecnologias.

Para não cair em armadilhas, o importante é preservar, nos processos de ensino e aprendizagem, o sentido do conhecimento - ou seja, as preocupações e as indagações do aluno, da cultura e da sociedade. A escola que se empenha em inquietar o jovem, confrontando-o com questionamentos e conteúdos que o ajudam a entender o mundo em que vive, não deve temer a tecnologia, mas problematizá-la.
Catarina Iavelberg
É assessora psicoeducacional especializada em Psicologia da Educação.
 fonte:http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/orientador-educacional/preciso-ensinar-alunos-usar-tecnologia-consciencia-615029.shtml