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terça-feira, 18 de junho de 2013

Pequenos artistas

Chega de casinhas com chaminés. A criatividade aparece quando você investe no trabalho com desenhos na creche e na pré-escola.

 

Foto: Gilvan Barreto

Foto: Gilvan Barreto
Quando eu tinha 15 anos, sabia desenhar como Rafael, mas precisei de uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças." A frase do artista espanhol Pablo Picasso (1881-1973) - referindo-se ao pintor renascentista Rafael Sanzio (1483-1520) - demonstra a importância de valorizar a riqueza artística nata dos pequenos. "É comum a idéia de que o desenho é uma ação espontânea da criança e que, portanto, não precisa ser desenvolvido", afirma a psicóloga Mônica Cintrão, da Universidade Paulista, em São Paulo. Num outro extremo está o uso de figuras infantilizadas produzidas por adultos, como elefantes com lacinhos, reduzindo o aprendizado em Artes a atividades de colorir.

O resultado dessa prática aparece desde o início do Ensino Fundamental. Muitas crianças afirmam que não sabem desenhar. Na hora da atividade, apresentam trabalhos estereotipados, traçando casinhas com chaminé e árvore no jardim, montanha com sol poente, gaivotas e homens-palito. Esses mesmos desenhos vão segui-las pela vida toda.
No livro Arte na Sala de Aula, Rosa Iavelbeg, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, aponta que os desenhistas têm idéias próprias sobre o que fazer e são elas que regem suas ações e interpretações. O desenho não é simplesmente a representação do mundo visível, mas uma linguagem com características próprias, que envolve decisões individuais e de culturas coletivas. "Ao ter isso em mente, o professor evita enquadrar os estudantes em visões parciais e deformadas sobre os atos de desenhar e de ler desenhos."

Quando o desenho é desenvolvido na Educação Infantil (leia o quadro nesta página), não ocorre o empobrecimento do grafismo, que, de acordo com alguns autores, se dá a partir dos 9 anos. O "cultivo" envolve informação e intervenção do professor e a interação do aluno com a produção dos colegas, com o meio natural e cultural e com a prática de artistas.

Atividades desse tipo têm lugar no Centro de Educação Infantil Gente Miúda, em Curitiba, e na EMEI Papa João Paulo II e no Instituto de Educação Santiago de Compostela, ambos em São Paulo. A professora Rosângela Barbosa Ferreira de Medeiros, da João Paulo II, planeja seu trabalho de forma que os alunos desconstruam o mito de que não sabem desenhar. "Quero que valorizem suas idéias e que não se submetam ao desenho figurativo só para agradar ao adulto."

De acordo com Rosa Iavelberg, cabe ao professor articular as práticas das crianças ao valor da arte na vida e na sociedade, às técnicas existentes e ao conceito de desenho. Para isso, Mônica Cintrão defende a importância de conhecer as transformações do desenho infantil (leia o item As etapas do grafismo). Essas informações ajudam a avaliar e a planejar as intervenções que devem ser feitas durante todo o ano letivo.

Diferentes materiais

Foto: Gilvan Barreto
Foto: Gilvan Barreto
Para agir de forma produtiva, o professor precisa ter consciência sobre o que os pequenos devem aprender. Assim, pode se guiar pelas fases dos desenhos e pelas práticas criativas das crianças. Para começar, é importante ampliar o conceito de desenho. "Ele não é uma linha de contorno que representa um objeto. É ação sobre uma superfície que produz algo para ser visto", explica Rosa.

Durante as aulas, é preciso criar constantemente situações em que a criança desenhe sobre o tema que quiser e experimente vários materiais - lápis, tinta, giz de cera, carvão - e diversos suportes - papel, chão, areia, parede...

A avaliação dos trabalhos também vai determinar a evolução das futuras produções artísiticas. Por isso, é necessário valorizar o desenho de todos e dialogar com os alunos sem impor o juízo estético adulto. Perguntar "o que é isso?" aos pequenos ou pedir que eles contem a história do desenho não é recomendável. "Isso induz a criança a tentar interpretar o desenho e a dar nome a traços que não foram feitos com a preocupação de serem nomeados. É preferível pedir que a criança fale do seu trabalho", diz Rosa.

Guarde as produções de cada estudante numa pasta e retome-as depois numa roda de apreciação. "Não importa se faz tempo que o desenho foi produzido. Mostrá-lo cria referência de que ele foi feito por alguém e pertence a um conjunto de obras", explica Rosa. Tudo isso contribui para a turma deslanchar e começar a elaborar traços mais criativos e bem compostos. Para que o trabalho tenha sucesso, é importante envolver os pais. É comum eles quererem ver as tais figuras desenhadas por adultos e coloridas pelos filhos na pasta de atividades no final do bimestre. Por isso, na próxima reunião, explique a importância do desenvolvimento criativo.

Mundo colorido

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Crianças de 4 anos geralmente já têm noção de espaço e desenham dentro do limite da folha, mas ainda não estabelecem uma escala de tamanho nem conhecem bem as cores. Uma árvore inteira pode ser pintada de verde e ser do tamanho de uma flor.

Para que os pequenos ampliem seu universo pictórico e percebam a diversidade de tons, formas e tamanhos, Nilciane Azamor Souza, professora da escola Gente Miúda, os leva para o parque. "Peço que prestem atenção nos detalhes das folhas, das flores, do tronco e da raiz e no tamanho da árvore em relação a outras plantas." Em classe, ela sugere que eles lembrem do que foi visto e pintem com guache e pincel.

Isso estimula a capacidade de reproduzir o que viram e permite perceber que o material e o suporte influenciam o desenho.

O que se vê

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Estimulada pela professora Rosângela, a turma de 5 anos da Escola Papa João Paulo II desenvolve a percepção eo desenho dos detalhes do rosto. Tocando-se, os pequenos vão percebendo a textura dos cílios, o contorno da boca, o traçado das sobrancelhas e as curvas das orelhas. Eles também observam a própria imagem no espelho e capricham nos detalhes ao desenhar cada uma dessas partes do rosto. Na hora de fazer o desenho de observação, um colega vira modelo ao se colocar dentro de uma moldura. Atento à representação que os colegas fazem dele, alerta que está faltando a orelha, que seu nariz não é assim etc. Um intervém no desenho do outro e, nessa troca, todos aprendem.
Teoria
As etapas do grafismo*
As fases a seguir se sucedem, mas a idade em que elas se manifestam varia

De 2 a 4 anos - Garatuja
Desordenada - Movimentos amplos e aleatórios que não respeitam o limite da folha.
Ordenada - Os rabiscos seguem o limite do papel.
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Nomeada - Os rabiscos ganham nome: papai, nenê, mamãe.
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
De 4 a 6 anos - Pré-esquema
Boneco girino - Tem início o desenho da figura humana, com braços e pernas que saem da cabeça. Mais adiante, os membros saem do corpo.

Exagero - Não há proporção nem perspectiva. As figuras são grandes ou pequenas demais.

Omissão - Faltam partes do corpo ou do rosto. Um braço pode ser mais comprido que o outro.

Justaposição - As figuras são misturadas na folha, sem linha de base (chão e céu). Não há organização espacial. O sol pode surgir na parte de baixo.
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
*de acordo com Viktor Lowenfeld (1947-1977)

Fonte: Avaliação Escolar do Desenho Infantil: Uma Proposta de critérios Para Análise, tese de Mônica Cintrão
Garatujas

No início do ano, as turmas da escola Santiago de Compostela que completam 2 anos no período letivo desenham garatujas desordenadas e rabiscos aleatórios que extrapolam o limite do papel. Todos os dias, durante dois meses, a professora Beatriz Massini Tartalho incentiva a prática do desenho com lápis de cor e grafite, giz de cera e caneta hidrocor. Desenhando e observando o trabalho dos colegas, a criança percebe o limite da folha e ordena as garatujas. "Quando o tema é livre, os pequenos fazem movimentos ampols e desordenados, sem pensar na figura. Se o tema é bicho, eles começam a imaginar uma imagem e desenham formas mais definidas", diz Beatriz. Logo, estão dando nome aos desenhos.

Alimento estético
Foto: Gilvan Barreto
Foto: Gilvan Barreto
A professora Rosângela leva para a sala de aula reproduções de arte de qualidade de diversas épocas e lugares. Escolhe bons artistas, valoriza os contemporâneos e dá preferência às cópias com boa definição. O material fica na caixa de imagens, guardada sobre uma bancada, ao alcance de todos e ao lado de lápis, giz, canetas hidrocor e papéis de vários formatos, tudo separado por cores. Toda semana, ela atualiza o cantinho da apreciação, um cartaz com fotos de rostos recortados de revistas e cartões- postais com obras contemporâneas e auto-retratos de artistas como Vincent van Gogh (1853-1890), Pablo Picasso e Joan Miró (1893-1983). É para lá que as crianças vão sempre que têm vontade ou sentem necessidade de buscar uma referência enquanto desenham.

Arte comentada
Foto: Gilvan Barreto
Foto: Gilvan Barreto
Na roda de apreciação, aparecem descobertas individuais e coletivas sobre a arte que todos estão produzindo. Alguns dias após terem feito um desenho, as crianças da turma da professora Rosângela sentam-se em círculo para explicar o que observaram no próprio trabalho, fazer comentários sobre o desenho dos colegas e relacionar as obras com as figuras que viram na caixa de imagens. A professora dá chance a cada um deles de falar sobre sua produção, sem atribuir valor estético. Assim, todos vão construindo um repertório pictórico.
Aprimorar o desenho...
- Possibilita a expressão pela linguagem pictórica, além da oral e escrita.
- Mostra o valor da arte na vida e na sociedade.
- Evita o empobrecimento gráfico e a produção de trabalhos estereotipados.
Quer saber mais?
CONTATOS
Centro de Educação Infantil Gente Miúda, R. Julia Wanderlei, 1205, 80710-210, Curitiba, PR, tel. (41) 3335-4425
EMEI Papa João Paulo II, R. Paulo Arentino, 870, 02998-140, São Paulo, SP, tel. (11) 3949-6814
Instituto de Educação Santiago de Compostela, R. Luis Molina, 70, 04116-280, São Paulo SP, tel. (11) 5572-0071

BIBLIOGRAFIA
Arte na Sala de Aula - Cadernos da Escola da Vila 1, Zélia Cavalcanti, 80 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 30 reais
Para Gostar de Aprender Arte - Sala de Aula e Formação de Professores, Rosa Iavelberg, 128 págs., Ed.

 

O desenho e o desenvolvimento das crianças

Os rabiscos ganham complexidade conforme os pequenos crescem e, ao mesmo tempo, impulsionam seu desenvolvimento cognitivo e expressivo.

 

Reprodução/Agradecimento Creche Central da Universidade de São Paulo (USP)
"Sabia que eu sei desenhar um cavalo? Ele está fazendo cocô."
"Vou desenhar aqui, que tem espaço vazio."

"O cavalo ficou escondido debaixo disso tudo!" Joana, 3 anos

Reprodução/Agradecimento Creche Central da Universidade de São Paulo (USP)
No início, o que se vê é um emaranhado de linhas, traços leves, pontos e círculos, que, muitas vezes, se sobrepõem em várias demãos. Poucos anos depois, já se verifica uma cena complexa, com edifícios e figuras humanas detalhados. O desenho acompanha o desenvolvimento dos pequenos como uma espécie de radiografia. Nele, vê-se como se relacionam com a realidade e com os elementos de sua cultura e como traduzem essa percepção graficamente.


Toda criança desenha. Pode ser com lápis e papel ou com caco de tijolo na parede. Agir com um riscador sobre um suporte é algo que ela aprende por imitação - ao ver os adultos escrevendo ou os irmãos desenhando, por exemplo. "Com a exploração de movimentos em papéis variados, ela adquire coordenação para desenhar", explica Mirian Celeste Martins, especialista no ensino de arte e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. A primeira relação da meninada com o desenho se dá, de fato, pelo movimento: o prazer de produzir um traço sobre o papel faz agir.

Os rabiscos realizados pelos menores, denominados garatujas, tiveram o sentido ampliado sob o olhar da pesquisadora norte-americana Rhoda Kellogg, que observou regularidades nessas produções abstratas (veja no topo da página o desenho de Joana, 3 anos, e sua explicação). Observando cerca de 300 mil produções, ela analisou principalmente a forma dos traçados (rabiscos básicos) e a maneira de ocupar o espaço do papel (modelos de implantação) até a entrada da criança no desenho figurativo, o que ocorre por volta dos 4 anos.

No período de produção de garatujas, ocorre uma importante exploração de suportes e instrumentos. A criança experimenta, por exemplo, desenhar nas paredes ou no chão e se interessa pelo efeito de diferentes materiais e formas de manipulá-los, como pressionar o marcador com força e fazer pontinhos. Essa atitude de experimentação tem valor indiscutível na opinião de Rhoda: "Para ela 'ver é crer' e o desenho se desenvolve com base nas observações que a criança realiza sobre sua própria ação gráfica", ressalta Rosa Iavelberg, especialista em desenho e docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), no livro O Desenho Cultivado da Criança: Práticas e Formação de Educadores. Esse aprendizado durante a ação é frisado pela artista plástica e estudiosa Edith Derdyk: "O desenho se torna mais expressivo quando existe uma conjunção afinada entre mão, gesto e instrumento, de maneira que, ao desenhar, o pensamento se faz".
De início, a criança desenha pelo prazer de riscar sobre o papel e pesquisa formas de ocupar a folha.
Com o tempo, a criança busca registrar as coisas do mundo

Uma das principais funções do desenho no desenvolvimento infantil é a possibilidade que oferece de representação da realidade. Trazer os objetos vistos no mundo para o papel é uma forma de lidar com os elementos do dia a dia. "Quando a criança veste uma roupa da mãe, admite-se que ela esteja procurando entender o papel da mulher", explica Maria Lúcia Batezat, especialista em Artes Visuais da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc). "No desenho, ocorre a mesma coisa. A diferença é que ela não usa o corpo, mas a visualidade e a motricidade." Esse processo caracteriza o desenhar como um jogo simbólico (veja abaixo o comentário de Yolanda, 5 anos, sobre seu desenho).
Reprodução/Agradecimento Creche Central da Universidade de São Paulo (USP)
"Esse aqui não é um coelho. Não me diga que é um coelho porque é um boi bebê. Eu estou fazendo uma galinha que foi botar ovo no mato. Quer dizer, uma menina que foi pegar plantas no mato para dar ao marido." Yolanda, 5 anos
Muitos autores se debruçaram sobre as produções gráficas infantis, analisando e organizando-as em fases ou momentos conceituais. Embora trabalhem com concepções diferentes e tenham chegado a classificações diversas, é possível estabelecer pontos em comum entre as evolutivas que estabelecem. Pesquisadores como Georges-Henri Luquet (1876-1965), Viktor Lowenfeld (1903-1960) e Florence de Mèridieu oferecem elementos para a compreensão dos desenhos figurativos das crianças, destacando algumas regularidades nas representações dos objetos.
Desenhar é uma forma de a criança lidar com a realidade que a cerca, representando situações que lhe interessam.
Mais cedo ou mais tarde, todos os pequenos se interessam em registrar no papel algo que seja reconhecido pelos outros. No começo, é comum observar o que se convencionou chamar de boneco girino, uma primeira figura humana constituída por um círculo de onde sai um traço representando o tronco, dois riscos para os braços e outros dois para as pernas. Depois, essa figura incorpora cada vez mais detalhes, conforme a criança refine seu esquema corporal e ganhe repertório imagético ao ver desenhos de sua cultura e dos próprios colegas.
Uma das primeiras pesquisas dos pequenos, assim que entram na figuração, é a relação topológica entre os objetos, como a proximidade e a distância entre eles, a continuidade e a descontinuidade e assim por diante. Em seguida, eles se interessam em registrar tudo o que sabem sobre o modelo ao qual se referem no desenho, e é possível verificar o uso de recursos como a transparência (o bebê visível dentro da barriga mãe, por exemplo) e o rebatimento (a figura vista, ao mesmo tempo, por mais de um ponto de vista). Assim, a criança se aproxima das noções iniciais de perspectiva e escala, estruturando o desenho em uma cena, sem misturar na mesma produção elementos de diferentes contextos (veja abaixo a produção de Anita, 5 anos, que detém essas características).
Reprodução/Agradecimento Creche Central da Universidade de São Paulo (USP)
"Vou desenhar a minha casa. Aqui é o portão e tem uma janela aqui." Anita, 5 anos
"Dá para ver a sua mãe dentro de casa?"
Repórter
"Não, porque a porta parece um espelho. Só daria se a janela estivesse aberta." Anita
O desenho é espontâneo ou é fruto da cultura?

Entre os principais estudiosos, há uma cizânia. Há os que defendem que o desenho é espontâneo e o contato com a cultura visual empobrece as produções, até que a criança se convence de que não sabe desenhar e para de fazê-lo. E há aqueles que depositam justamente no seu repertório visual o desenvolvimento do desenho. Nas discussões atuais, domina a segunda posição. "A única coisa que sabemos ser universal no desenho infantil é a garatuja. Todo o resto depende do contexto cultural", diz Rosa Iavelberg.
Detalhes da figura humana, noções de perspectiva e realismo visual são elementos da evolução do desenho.

Essa perspectiva não admite o empobrecimento do desenho infantil, mas entende que a criança reconhece a forma de representar graficamente sua cultura e deseja aprendê-la. Assim, cai por terra o mito de que ela se afasta dessa prática quando se alfabetiza. "O desenho é uma forma de linguagem que tem seus próprios códigos", diz Mirian Celeste Martins. "Para se aproximar do que ele expressa, é preciso fazer uma escuta atenta enquanto ele é produzido." Para Mirian, a relação entre a aquisição da escrita e a diminuição do desenho ocorre porque a escola dá pouco espaço a este quando a criança se alfabetiza - algo a ser repensado em defesa de nossos desenhistas.

* Os desenhos e os diálogos publicados nesta reportagem são de crianças de 3 a 5 anos da Creche Central da Universidade de São Paulo (USP)
Quer saber mais?
CONTATOS
Edith Derdyk
Maria Lúcia Batezat
Mirian Celeste Martins
Rosa Iavelberg

BIBLIOGRAFIA
O Desenho Cultivado da Criança: Práticas e Formação de Educadores, Rosa Iavelberg, 112 págs., Ed. Zouk, tel. (51) 3024-7554, 23 reais
Tratado de Psicologia Experimental, vol. 8, Paul Fraisse e Jean Piaget, 313 págs., Ed. Forense, tel. (11) 4062-5152 (edição esgotada)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A importância do desenho na pré-escola



Ensinar a turma a desenhar exige oferecer contato permanente com a produção artística de diferentes lugares e épocas para ampliar o olhar

Foto: Fernanda Sá; Agradecimentos: Chicletaria, Puc e Tyrol

Foto: Fernanda Sá; Agradecimentos: Chicletaria, Puc e Tyrol

Crianças em idade pré-escolar adoram desenhar. Traçam círculos imaginários com canudinhos, usam o dedo para rabiscar o vidro embaçado do carro, fazem cenários na areia. Quando têm acesso ao lápis, então, é uma festa. O desenho é uma das formas de expressar o que sentem e pensam sobre si mesmas e o mundo. "Elas passam a entender melhor suas emoções e a mostrar sua interpretação dos valores, conceitos e normas da sociedade, bem como expressar carinho pelos amigos e familiares", diz a psicopedagoga Mônica Cintrão, da Universidade Paulista (Unip), em São Paulo. Além disso, descobrem que é possível inventar e fantasiar. "Qualquer um pode criar um super-herói", completa Paulo Cheida Sans, professor da Faculdade de Artes Visuais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, no interior paulista.

Mas é possível ensinar a desenhar? Desde o século 19, duas escolas se alternaram no dia-a-dia: a tradicional, segundo a qual as crianças devem copiar modelos, e a renovada, que defende que eles não precisam de orientação. Hoje, o modelo contemporâneo propõe que o melhor é instigá-los a criar partindo do conhecimento do mundo da arte e da cultura visual. É o que os especialistas chamam de "desenho cultivado". No livro O Desenho Cultivado da Criança: Prática e Formação de Educadores, Rosa Iavelberg, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), comenta essas mudanças.

Segundo ela, a escola tradicional pregava que, por não saber desenhar, as crianças precisavam treinar habilidades e cópia para chegar ao referencial de imagens figurativas, cada vez mais próximas da realidade e dos modelos da arte adulta. Nessa época, só havia espaço para a reprodução técnica, marcada pela impessoalidade dos aprendizes, que imitavam formas externas e preconcebidas. Imagens de bichos e objetos também eram apresentadas como atalhos para o ensino de números: a haste de um guarda-chuva virava o 1, a curva do pescoço de um cisne transformava-se no 2. Essas propostas acabaram superadas porque impunham um ponto de vista adulto sobre a aprendizagem sem levar em conta o saber da criança.
Reprodução
Antes e depois, a marca da evolução: desenhos feitos pela pequena Daniela, 4 anos, no início de fevereiro e no fim de março. Reprodução

Desenho espontâneo


Já a escola renovada do século 20, cujos principais estudiosos foram o francês Georges-Henri Luquet, o austríaco Viktor Lowenfeld e a norte-americana Rhoda Kellogg, via na produção infantil uma forma de entender o desenvolvimento psicológico. Assim, passou-se a valorizar o chamado desenho espontâneo, no qual o professor não podia intervir - bastava criar as condições adequadas para cada um se expressar. Coinfluenciado pelas idéias de Jean Piaget, Luquet defendeu, em 1913, que as crianças têm um "modelo interno" e por isso não copiam os objetos da maneira pela qual os percebe, mas transfigura-os com base nas próprias referências. Lowenfeld segue na mesma linha em Desenvolvimento da Capacidade Criadora, livro de 1947: "O desenho, a pintura ou a construção constituem processos complexos, nos quais a criança reúne diversos elementos de sua experiência para formar um conjunto com um novo significado". Segundo ele, o educador teria a função de ampliar a sensibilidade e aguçar os sentidos da garotada, já que "o homem aprende através dos sentidos".

Na segunda metade do século 20, Rhoda Kellogg pesquisou mais de 300 mil desenhos infantis. Entre outras coisas, descobriu que há muitas representações parecidas de casas, árvores e seres humanos. Para ela, essa constatação é um indício de que o impulso criativo é uma herança comum a toda a humanidade, não restrita a uma cultura ou um país. Rhoda defendeu que a criança é autodidata e que, se não houver interferência inadequada do adulto, vai chegar, desenhando, ao estágio final de crescimento emotivo, intelectual e espiritual. Outro importante legado dessa fase é que o desenho evolui com a idade, das formas mais simples (os rabiscos conhecidos como garatujas) para as mais complexas.
Brincando de ser artista
Fotos: Leo Drumond e arquivo pessoal
A turma de Belo Horizonte: olhar bem treinado e inspiração no estilo do artista pernambucano Romero Britto (3ª foto). Fotos: Leo Drumond e arquivo pessoal
Desde 2003, o Colégio Balão Vermelho, de Belo Horizonte, promove uma Oficina do Olhar, em que as crianças são instigadas a observar os próprios desenhos, expostos nos corredores, e a apreciar obras de arte e catálogos de propaganda. Recentemente, as turmas foram divididas em grupos de 12 com a missão de encontrar, em fotografias, partes da escola. Cada equipe recebia uma imagem e corria para achar o lugar. "O objetivo das oficinas é ampliar a capacidade de observar e compreender as artes visuais", afirma a coordenadora pedagógica Adriana Torres Máximo Monteiro.

A professora Ana Paula Alves Rodrigues costuma levar suas classes do Infantil II (4 e 5 anos) para passeios em galerias, museus e outros locais, como o Jardim Zoológico. De tanto treinar o olhar da meninada para as especificidades das obras (o jeito de pintar, os materiais utilizados, as formas e cores), ela conseguiu que a própria turma sugerisse produzir desenhos no estilo do pernambucano Romero Britto, cujas peças tinham sido descobertas numa dessas visitas. Vitor Lobato, 4 anos, foi um dos que se encantaram com a produção de Britto. "Adorei as cores", lembra o garoto. Ana Paula também adorou a idéia e logo reuniu tinta guache, tinta pastel e cartolina - e deixou a criatividade rolar solta. Ela lembra que é papel do professor deixar claro para a turma que a proposta do trabalho não é copiar o artista. "O que importa é pegar idéias e se inspirar. Assim, os pequenos aprendem a dominar o traço ao tentar adaptar o estilo."

 

Subjetividade e cultura

Foto: Leo Drumond
Foto: Leo Drumond
Os trabalhos da escola renovada foram essenciais para acabar com a cópia pura e simples, mas deram margem a uma interpretação antagônica: se as crianças precisam expressar o que vem de "dentro" e, com a idade, traçam formas mais complexas, basta deixá-las desenharem. Essa visão se mostrou incompleta, entre outras coisas, porque constatou-se que, no Ensino Fundamental, muitos alunos paravam de produzir por falta de intervenção do professor. O ponto de equilíbrio veio com a escola contemporânea, nos anos 1980. Essa corrente argumenta que não se deve descartar o processo interno de cada um, mas é essencial aliar a subjetividade à cultura. A expressão "desenho cultivado" foi criada por Rosa Iavelberg em 1993. Ela diz que é preciso oferecer elementos culturais de modo que o acesso a clássicos da história da arte universal, à cultura visual e a diferentes técnicas e materiais possibilite que todos se expressem com mais "saber desenhista".

Se a marca da escola tradicional era a reprodução, e a da renovada, a espontaneidade, o modelo atual privilegia a reflexão e a recriação. Quando a criança quer traçar uma flor, será influenciada naturalmente pelas formas de flores que ela já viu (ao vivo ou em obras de arte). Observa-se aí uma grande diferença das tendências tradicional e renovada. Em vez de elaborar aquela imagem clássica das pétalas em forma de coração (tradicional) ou traçar linhas que em nada remetam ao objeto original (renovada), na escola contemporânea a flor é influenciada por vários modelos prontos, mas com liberdade de expressão.

Mudança de conceitos


A postura do professor também muda. Se na tradicional o papel era pedir a cópia, e na renovada, abrir espaço para o desenho livre, agora é fundamental garantir que a turma aprenda sobre o desenho e também tenha espaço para escolher o que fazer. O principal ensinamento é que devemos ter uma visão mais ampla do que é arte visual, para além de telas e desenhos no papel. Fotos, outdoors, esculturas, instalações, objetos do cotidiano e histórias em quadrinho são parte da cultura visual e merecem ser trabalhados em sala. Você pode ainda levar rótulos de embalagens, chamar a atenção para a marca das roupas, dos tênis e das mochilas e montar um espaço para gibis, revistas e catálogos. Fora dos muros escolares, uma boa pedida é ver o estilo de numeração das casas.

Outra reorientação conceitual se dá na forma de apresentar os artistas. Ao falar de Alfredo Volpi, por exemplo, é mais importante ater-se à exploração da imagem, mergulhar em suas formas e cores e passar informações relevantes, como a de que ele foi um pintor de paredes. Só fazer com que a meninada reproduza suas telas cheias de bandeirinhas não acrescenta nada à aprendizagem.

Com a mão na massa

Fotos: Leo Drumond
Fátima Tosca recebe crianças em seu ateliê: a visita permitiu ver como a artista trabalha e inspirar-se em sua obra. Fotos: Leo Drumond
Na Escola Casa Via Magia, em Salvador, a professora Rita Virgínia Oliveira e Souza levou as crianças para conhecer o ateliê de uma artista plástica. Tudo começou quando os trabalhos de Isadora Ribeiro Santana, 5 anos, chamaram a atenção do grupo. A pequena adorava desenhar flores e a garotada ficava encantada com as histórias que ela contava da mãe, Fátima Tosca. Advogada que nunca exerceu a profissão, ela iniciou a carreira nas artes sem fazer nenhum curso e pinta há quase 30 anos. Um dia, enquanto buscava a filha, suja de tinta, Fátima aceitou com prazer a proposta da professora: receber a turma e mostrar sua oficina. "Durante duas horas, nem a piscina no quintal desconcentrou as crianças", lembra.

Para criar um ambiente tranqüilo e relaxado, ela deixou todos observarem os quadros e fazerem comentários com os colegas. Na seqüência, Fátima mostrou como misturar as cores e explicou brevemente suas técnicas de pintura. Depois, os pequenos tiveram a oportunidade de fazer os próprios trabalhos em tela, junto com a artista. O momento mais divertido da visita foi o Jogo dos Títulos. Fátima contou como costuma dar nome às obras e a imaginação da meninada rolou solta. "A produção de uma das crianças acabou batizada de A Árvore Torta Que Cresceu Demais." E Isadora adorou receber os colegas em casa. "Eles gostaram dos quadros da minha mãe e a gente pôde pintar também."

A evolução do trabalho


Foto: Leo Drumond

                                                    Foto: Leo Drumond

Assim como não é recomendável apresentar obras de arte com base na estética do bonito ou feio, não é papel da escola avaliar os desenhos o mesmo esse critério. "Esse tipo de avaliação pode causar uma inibição difícil de reverter", diz o professor Cheida Sans. A melhor forma de acompanhar os avanços é evitar comparações e apenas observar o percurso de cada um e suas progressões. Sim, as crianças podem (e devem) evoluir no dia-a-dia, com a supervisão do professor (acompanhe nos quadros desta reportagem duas experiências bem-sucedidas com desenho na pré-escola, uma em Belo Horizonte e outra em Salvador).

Bons caminhos para fazer a turma evoluir incluem planejar atividades que ajudem a desenvolver o olhar, como observar ambientes, fotos, imagens de computador e histórias em quadrinhos; promover conversas sobre o fazer artístico; apresentar artistas e suas obras e, claro, oferecer uma ampla gama de materiais (giz de cera grosso, massinha, pincel, revistas, jornais, catálogos de propaganda, tesoura sem ponta, cola em bastão) e suportes de diferentes tamanhos (papel craft, papel sulfite, panos, painéis, cartolina, tecido, areia, chão, parede).

Os especialistas dizem ainda que é recomendável fazer intervenções no papel: colar figuras ou iniciar traços, para todos completarem. Da mesma forma, o diálogo com outras artes ajuda muito. Dramatizar uma obra ou colocar uma música de época torna o clima mais propício ao desenvolvimento do grupo. Finalmente, é essencial ampliar o contato com obras de arte, seja em visitas a exposições (com objetivos claros, para o antes, o durante e o depois), seja em ateliês de artistas locais.

Se você tem crianças com deficiência na sala, algumas dicas podem ser úteis. Usar uma fruta para explicar uma natureza-morta para cego, por exemplo. Fazer maquetes em relevo com os elementos do quadro usando EVA, lixa ou tapete permite que todos sintam as texturas. "Inclusão não é ter a criança na classe e ponto. É preciso que suas necessidades de aprendizado sejam contempladas", diz a arte-educadora Amanda Fonseca Tojal, coordenadora do Programa Educativo Públicos Especiais da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
Quer saber mais?
CONTATOS
Amanda Tojal
Associação de Assistência à Criança Deficiente, R. Pedro de Toledo, 1620, 04039-004, tel. (11) 5576-0982, São Paulo, SP
Centro Universitário Maria Antonia, R. Maria Antonia, 294, 01222-010, São Paulo, SP, tels. (11) 3255-7182 e 3151.4953
Escola Casa Via Magia, R. Henriqueta Catarino, 123, 40220-180, Salvador, BA, tel. (71) 3247-0068
Escola Balão Vermelho, Av. Bandeirantes, 800, 30315-000, Belo Horizonte, MG, tel. (31) 3281-7799
Isabel Bertevelli
Mônica Cintrão
Paulo Cheida Sans
Pinacoteca do Estado de São Paulo, Pça. da Luz, 2, 01120-010, São Paulo, SP, tel. (11) 3324-1000
Rosa Iavelberg

BIBLIOGRAFIA
O Desenho Cultivado da Criança: Prática e Formação de Educadores
, Rosa Iavelberg, 112 págs., Ed. Zouk, tel. (51) 3024-7554, 19 reais
Desenvolvimento da Capacidade Criadora, Viktor Lowenfeld e W. Lambert Brittain, 440 págs., Ed. Mestre Jou, 94 reais
Pedagogia do Desenho Infantil, Paulo Cheida Sans, 107 págs., Ed. Alínea, tel. (19) 3232-9340, 25 reais

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Quem é o e que faz o orientador educacional

Esse é o profissional que se preocupa com a formação pessoal de cada estudante

Na instituição escolar, o orientador educacional é um dos profissionais da equipe de gestão. Ele trabalha diretamente com os alunos, ajudando-os em seu desenvolvimento pessoal; em parceria com os professores, para compreender o comportamento dos estudantes e agir de maneira adequada em relação a eles; com a escola, na organização e realização da proposta pedagógica; e com a comunidade, orientando, ouvindo e dialogando com pais e responsáveis.
Apesar da remuneração semelhante, professores e orientadores têm diferenças marcantes de atuação. "O profissional de sala de aula está voltado para o processo de ensino-aprendizagem na especificidade de sua área de conhecimento, como Geografia ou Matemática", define Mírian Paura, da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. "Já o orientador não tem currículo a seguir. Seu compromisso é com a formação permanente no que diz respeito a valores, atitudes, emoções e sentimentos, sempre discutindo, analisando e criticando."

Embora esse seja um papel fundamental, muitas escolas não têm mais esse profissional na equipe, o que não significa que não exista alguém desempenhando as mesmas funções. Para Clice Capelossi Haddad, orientadora educacional da Escola da Vila, em São Paulo, "qualquer educador pode ajudar o aluno em suas questões pessoais". O que não deve ser confundido com as funções do psicólogo escolar, que tem uma dimensão terapêutica de atendimento. O orientador educacional lida mais com assuntos que dizem respeito a escolhas, relacionamento com colegas, vivências familiares.

Se você se interessa em seguir essa carreira, saiba que é preciso ter curso superior de Pedagogia ou pós-graduação em Orientação Educacional.

O que ele faz
Contribui para o desenvolvimento pessoal do aluno.

Ajuda a escola a organizar e realizar a proposta pedagógica.

Trabalha em parceria com o professor para compreender o comportamento dos alunos e agir de maneira adequada em relação a eles.

Ouve, dialoga e dá orientações.

Quer saber mais?
Escola da Vila, Unidade Butantã, R. Barroso Neto, 91, CEP 05595-010, São Paulo, SP, tel. (0_ _11) 3726-3578

BIBLIOGRAFIA

Ação Integrada - Administração, Supervisão e Orientação Educacional
, Heloísa Lück, 66 págs., Ed. Vozes, tel. (0_ _24) 2233-9000, r. 9042 e 9029, 8,90 reais

A Orientação Educacional - Conflito de Paradigmas e Alternativas para a Escola, Mírian Paura S. Zippin Grinspun, 176 págs., Ed. Cortez, tel. (0_ _11) 3864-0111, 18 reais

 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Ensino nas horas difíceis

Lecionar para estudantes internados exige preparo psicológico para lidar com as famílias, os médicos, as escolas... e a morte

Foto: Patrícia Stavis
NO LEITO E FELIZ  Frank foi alfabetizado dentro do Hospital do Câncer, em São Paulo. Agora, já está na 2ª série.  Foto: Patrícia Stavis
Em 2007, quando entraria no Ensino Fundamental, o pequeno índio wapixana Frank Silva ficou doente. Teve um câncer diagnosticado e precisou sair de Roraima, onde morava, para buscar ajuda especializada. Desde o ano passado, está internado em São Paulo. Mas não foi esse imprevisto - nem a forte medicação que vem tomando - que o deixou fora da escola. Matriculado desde o começo do tratamento em uma classe dentro do Hospital do Câncer, ele não só foi alfabetizado como já está na 2ª série.

Frank é uma das 65.956 crianças que estudaram em salas adaptadas ou no próprio leito em 2007, segundo o Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Apesar do público numeroso, a modalidade ainda não é uma realidade em todo o território nacional. O próprio Ministério da Educação (MEC) reconhece que há carências graves pelo país - são 850 hospitais oferecendo o atendimento, em um universo de quase 8 mil unidades.
Além disso, especialistas alegam que as experiências em curso nem sempre ocorrem num contexto ideal. "Há o déficit de profissionais para atuar do 6º ao 9º ano. E, em muitos lugares, o voluntário ainda atua no lugar do educador", diz Eneida Simões da Fonseca, professora do Departamento de Estudos em Educação Inclusiva e Continuada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Na prática, é a equipe médica que deve acionar as secretarias de Educação assim que um estudante da rede pública dá entrada com alguma doença severa (para os oriundos da particular, é a própria escola que deve providenciar o serviço). Em alguns estados e municípios, já existe inclusive um quadro de docentes previamente concursados e preparados para a função, e é junto a esses órgãos que interessados no emprego devem procurar orientações. "Cabe aos governos locais oferecer a mão-de-obra e as capacitações necessárias. Tudo para que o aluno se atrase o mínimo possível no ritmo de sua turma original", diz Martinha Dutra dos Santos, coordenadora-geral da Secretaria de Educação Especial do MEC.
Apesar de ser chamada tecnicamente de classe, a aula é individual, nos leitos ou em salas cedidas pela unidade de Saúde. Diferentemente de uma escola regular (onde é possível fazer atividades de longa duração), cada tarefa precisa ter início, meio e fim no mesmo dia. "É um ritmo estranho. Eu posso planejar tudo hoje e, amanhã, o estudante recebe alta. Daí eu tenho que fazer coisas novas para outra criança que acabou de chegar", conta a professora Geane Yada, do Hospital Darcy Vargas, em São Paulo. A carga horária também muda. O educador pode iniciar uma conversa e, em instantes, ter de parar devido a uma indisposição. O indicado é que o aluno consiga ter o mesmo conteúdo e a mesma carga horária da escola. Mas, com o sobe-e-desce do tratamento, isso nem sempre é possível.

Escola de origem precisa dar apoio aos professores 
Foto: Marcelo Almeida
SEM INTERRUPÇÃO  de aula, mesmo doente, estuda no Hospital do Trabalhador, em Curitiba. Foto: Marcelo Almeida
Assim que um estudante chega para tratamento, o titular da classe hospitalar deve chamar a família e o futuro aluno para conversar sobre sua situação. Normalmente, um coordenador pedagógico articula essa fase. Em seguida, o docente entra em contato com a escola para solicitar o currículo que a criança seguiria e também as atividades já realizadas. Cabe à unidade de ensino encaminhar todas as tarefas previstas para que o aluno faça em sua internação - inclusive as provas, que serão devolvidas para a correção pelo educador da turma regular.

A professora Célia Wiczneski, coordenadora pedagógica do Hospital do Trabalhador, em Curitiba, conta que essa relação não é fácil e, como já aconteceu, a escola muitas vezes nem sabe que um estudante adoeceu. "Hoje é mais fácil conversar. Mas, no início, eu precisei bater o pé. E, quando não tinha solução, ligava para a Secretaria de Educação e contava o que estava acontecendo." Foi com tanto empenho que garantiu a continuidade nos estudos de vários jovens como Felipe Eduardo Alves da Silva, 9 anos, que está na 4ª série e sofre de osteomielite (infecção óssea) e precisa de internações sucessivas.

Para trilhar esse caminho, o MEC sugere articular a programação de atendimento em dois momentos. No primeiro, o docente trabalha com os conteúdos definidos num currículo próprio, geral, que tem por base os Parâmetros Curriculares Nacionais. "É para evitar atrasos em caso de demora no envio dos materiais pela escola de origem", explica Rosemary Hilário, coordenadora do Hospital do Câncer. No segundo, já de posse da papelada, a equipe do hospital adapta o trabalho pedagógico de acordo com o histórico do aluno, muitas vezes lançando mão de uma avaliação inicial.

Uma articulação especial é necessária quando o estudante apresenta um quadro clínico que requer idas e vindas constantes. É o caso de Eula Carla de Lima, 12 anos. Ela está na 6ª série, sofre com displasia (anomalia) na tíbia esquerda e precisa passar por cirurgias frequentes, também no Hospital do Trabalhador. Para ela, o ano escolar acontece simultaneamente na unidade regular em que estava matriculada e no hospital.

Mas, como contam os profissionais, a questão mais delicada em todo o trabalho é lidar com a morte. Enquanto esta reportagem estava sendo feita, uma aluna do Darcy Vargas faleceu. Para Rosemary, são coisas que acontecem. "Temos de encarar da mesma forma que faríamos em uma turma regular", argumenta. "E, na hora que os familiares chegam para conversar com você, não podemos esquecer que não somos psicólogos para dar orientações. A melhor coisa é ouvir." Atualmente, já existem até cursos de especialização para ajudar os professores a enfrentar e se adaptar a todas essas situações.
Obrigação está na lei
Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional deu início à formalização do funcionamento das classes hospitalares, determinando aos governos "garantir atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular". Em 2001, o Conselho Nacional de Educação, no artigo 13º da Resolução nº 2, tratou da obrigatoriedade do sistema e utilizou, pela primeira vez, a nomenclaura "classe hospitalar". Desde então, ficou definido que "os sistemas de ensino, mediante ação integrada com os sistemas de saúde, devem organizar o atendimento educacional especializado a alunos impossibilitados de frequentar as aulas em razão de tratamento de saúde que implique internação hospitalar, atendimento ambulatorial ou permanência prolongada em domicílio". Com base nas regras anteriores, a Secretaria de Educação Especial do MEC elaborou em 2002 os termos reguladores que detalham o trabalho dentro das unidades de Saúde. Cabe aos estados e municípios adaptar essa legislação nacional e traçar orientações específicas para cada rede de ensino.
Os cuidados para uma boa reintegração

A volta para a escola precisa ser pensada com antecedência e levar em conta eventuais adaptações estruturais necessárias, como a construção de rampas para os jovens que passam a usar cadeira de rodas. A montagem bem feita de uma pasta ou arquivo, com toda a documentação sobre o período de internação, também é essencial. Devem ser reunidos os exercícios feitos, os exames aplicados e os relatórios com a carga horária total do atendimento, os conteúdos abordados e as principais dificuldades encontradas, inclusive com as observações feitas pelo docente.

A aplicação de provas para medir o nível do aluno em seu retorno não é defendida pelo MEC. O ideal, para o órgão, é que a equipe pedagógica estude os materiais enviados pelo hospital para chegar a um diagnóstico. A sensibilização da comunidade escolar também é essencial e ajuda a evitar comentários maldosos. Como contam os especialistas, a manutenção do vínculo com a unidade de ensino durante o período de afastamento é a melhor arma contra os problemas, já que todos estão cientes do processo.
Ensino que faz bem
Além de permitir que o aluno internado não perca tempo nos estudos e continue acompanhando o currículo de sua escola, as atividades nas classes hospitalares são apontadas por estudos como aliadas da recuperação clínica dos estudantes. Uma pesquisa conduzida pela professora Izabel Cristina Silva Moura, do Instituto Helena Antipoff, vinculado à Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, acompanhou 50 crianças por um mês em três hospitais diferentes da cidade. Ela observou que o grupo que assistia às aulas teve níveis de estresse menores do que os que não passavam pelo atendimento, de acordo com uma escala especial para esse tipo de análise.

Informalmente, essa também é uma constatação diária das educadoras que trabalham com jovens doentes. Em 2000, conta a professora Rosemary Hilário, do Hospital do Câncer, a prefeitura de São Paulo deu férias coletivas para todos os docentes, inclusive os que não atuavam nas unidades regulares. Até então, a classe de lá ficava aberta nas férias. Durante o recesso, os médicos que cuidavam dos estudantes internados relataram que as crianças usaram o dobro de analgésicos. "E, quando eram perguntadas sobre as dores, elas não sabiam responder", lembra. "Achamos que isso foi causado pelo ócio. Os alunos precisam se ocupar,
esquecer que estão numa situação delicada", diz. Desde então, a classe fica aberta o ano todo, com esquema de revezamento entre os professores no período de festas.
Esta reportagem foi sugerida pelos leitores Adenildes Ferreira, Salvador, BA, Adrine Silva Brito, Jacareí, SP, Alessandra Faria, Brasília, DF, Amanda Franco Sousa, Recanto das Emas, DF, Angela Maria Sanchez, São Paulo, SP, Antonia Peret, Pouso Alegre, MG, Barbara Xavier, Cotia, SP, Daniella Joana Pereira dos Santos, São Paulo, SP, Kilvia Cristine de Oliveira Lima, Fortaleza, CE, e Mauriceia Correa, Rolim de Moura, RO
Quer saber mais?
CONTATOS
Hospital Darcy Vargas
, R. Seráfico Assis de Carvalho, 34, 5614-040, São Paulo, SP, tel. (11) 3723-3839
Hospital do Câncer, R. Professor Antônio Prudente, 211, 01525-000, São Paulo, SP, tel. (11) 2189-5000
Hospital do Trabalhador, Av. República Argentina, 4406, 81050-000, Curitiba, PR, tel. (41) 3212-5870

BIBLIOGRAFIA
Atendimento Escolar no Ambiente Hospitalar, Eneida Simões da Fonseca, 100 págs., Ed. Memnon, tel. (11) 5575-8444, 28 reais  

O QUE É LIBRAS?






O QUE É LIBRAS?


No ano de 2002, a comunidade surda brasileira pôde comemorar uma grande vitória: a regulamentação da Lei n.º 10.436, de 24 de abril de 2002, que reconhece como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira 

LIBRAS = Língua Brasileira de Sinais

Inicialmente, ao buscarmos entender o que é LIBRAS, é necessário antes, esclarecer o que é a língua de sinais
língua de sinais é também conhecida como língua gestual, pois tal é seu sentido literário. A mesma utiliza-se de gestos e sinais em substituição à língua que todos nós bem conhecemos em nossas comunicações: a língua de sons ou oral.

Falamos em “comunicação” e a língua de sinais possui exatamente esse sentido, ou seja, de ser o meio de um grupo de indivíduos poderem comunicar-se, pois é através dela que as pessoas surdas trocam comunicações entre si, e até mesmo com as pessoas que já aprenderam a interpretá-la. Aliás, isto vem ocorrendo de forma significativa.

Assim como existem várias línguas faladas no mundo, também existem várias línguas de sinais pelo mundo. De todas, a mais comum é a Língua de Sinais Americana (ASL – American Sign Language). Muitas línguas de sinais já receberam reconhecimento de governos em muitos países. Chamamos isso de reconhecimento oficial.
O que ocorre na língua de sinais é que muitas pessoas criaram mitos sobre ela e que devem ser desfeitos de uma vez por todas:

É universal?  Não, isto é, ela não é igual em todo o mundo. Cada país tem sua própria língua de sinais, tal como temos nossa própria língua falada. Apesar disso, pode ocorrer de pessoas utilizando códigos diferentes possam entender-se ao menos no mínimo necessário, tal como conseguimos, sem falar outra língua.

Vejam algumas siglas:

Libras
Língua Brasileira de Sinais
LGP
 Língua Gestual Portuguesa
SLN
Sign Language of Netherlands
ASL
American Sign Language
LSA
Lengua de Señas Argentina
BSL
British Sign Language
LSCH
Lengua de Señas Chilena
LSF
Langue des Signes Française

Muitos acham até que, por se tratar de comunicação por gestos, ela deveria ser igual para todos os surdos. Outros acham que a comunidade surda do mundo, por ser pequena, deveria fazer uso de apenas uma língua de sinais, até mesmo, por se tratar de uma linguagem icônica (representativa). Vejamos por que não é assim:

Primeiro que a língua de sinais não é baseada em gestos ou mímicas, trata-se de uma língua natural, com léxico (léxico é todo o conjunto de palavras que as pessoas de uma determinada língua têm à sua disposição para expressar-se, oralmente ou por escrito) e gramática próprios.

Segundo que cada comunidade de surdos desenvolveu a sua própria língua de sinais, tal como cada povo desenvolveu sua língua oral. Isso demandou muito tempo. Como num país pode haver mais de uma língua, há países que contam com mais de uma língua de sinais.

A língua de sinais se difere das línguas orais-auditivas, uma vez que elas se realizam pelo canal visual e da utilização do espaço, por expressões faciais e até movimentos gestuais perceptíveis pela visão. Note-se aqui que a língua de sinais não faz apenas uso de gestos.

A língua de sinais é um legítimo sistema linguístico, inclusive estudada pelos Linguistas, pois atende eficazmente às necessidades de comunicação entre os indivíduos surdos, os quais são capazes de expressarem qualquer assunto de seu interesse ou conhecimento.

LIBRAS:

LIBRAS, abreviação de Língua Brasileira de Sinais. LIBRAS é usada pela comunidade de surdos no Brasil e já foi reconhecida pela Lei, ou seja, é uma língua oficial, tal como nossa língua falada. Estão garantidas pelo poder público, formas institucionalizadas de apoio para o uso e a difusão da Libras como meio de comunicação nas comunidades surdas, inclusive o sistema educacional federal, estadual e municipal devem garantir a inclusão do ensino da LIBRAS nos cursos de formação de Educação Especial,  Fonoaudiologia e Magistério, tanto nos níveis médio como no superior.

LIBRAS é uma língua derivada da língua de sinais autóctone (que é natural da região onde ocorre), ou seja, do Brasil, e também da língua gestual francesa. Daí sua semelhança com línguas de sinais da Europa e da América. Como citado anteriormente, a LIBRAS não é uma língua de gestos representando a língua portuguesa, e sim uma autêntica língua de nosso país.

Semelhante à língua oral que é composta por fonemas (qualquer dos traços distintivos de um som da fala, capaz de diferençar uma palavra de outra), a LIBRAS também possui níveis linguísticos como fonologia, morfologia, sintaxe e semântica. E as semelhanças não param por aí: na língua de sinais também existem itens lexicais, os quais se chamam de sinais. Motivo pelo qual é considerada uma autêntica língua. O que é denominado de palavra (item lexical), na língua oral-auditiva, na língua de sinais são denominados de sinais. O diferencial da língua de sinais das demais línguas é a sua modalidade visual-espacial.

Vamos elucidar o que isso significa: É que os sinais são formados a partir da combinação da forma e do movimento das mãos e do ponto no corpo (ou no espaço) onde esses sinais são realizados.  Por exemplo, a mesma formação das mãos, porém em lugar diferente no espaço ou do corpo adquire outro sentido, isto é, significa uma outra palavra. Há ainda de considerar que tal como a língua oral possui significados diferentes para a mesma palavra em regiões diferentes do Brasil, na LIBRAS isso também ocorre.
  
Conclui-se que não basta apenas saber os sinais, mas sim sua gramática,  para que se possa combinar as frases e estabelecer a comunicação.


Retirado do site: http://www.libras.com.br/libras/o-que-e-libras em 24/04/2013

segunda-feira, 22 de abril de 2013


A professora é Down

Débora Seabra venceu preconceitos, alfabetiza crianças e é um exemplo de como a inclusão de pessoas com deficiência é possível

Mariana Brugger
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VITÓRIA
Débora Seabra e seus alunos: ela é a primeira professora Down do País
Débora Seabra tem 31 anos e é professora de uma turma de alfabetização com 28 crianças de 6 e 7 anos na Escola Doméstica, instituição de ensino particular, em Natal (RN), onde nasceu. Ela é muito querida pelos alunos e pais. Seria uma situação comum se Débora não tivesse síndrome de Down. Na guerra pela inclusão travada diariamente por familiares e por portadores da síndrome, Débora é uma vitoriosa. Ela é a primeira professora, formada em nível médio, nesta condição no País.
A professora potiguar é o resultado de uma nova postura no trato de pessoas com Down: incluir e capacitar, em vez de esconder. Cerca de 25 jovens estão no mesmo caminho — entre os que estão na faculdade e os que já se formaram. Outros 50 ingressam em cursos profissionalizantes a cada ano. “No Brasil atual, a pessoa que tem Down encontra portas abertas na cultura, nos esportes e em diversos setores”, diz Débora Mascarenhas, psicóloga do Movimento Down. “É uma grande conquista para nós.” Mas nem tudo são flores.
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Segundo a atual legislação, pessoas com deficiência podem participar dos sistemas de cotas, tanto para ingressar em universidades quanto para trabalhar. Empresas com mais de 100 empregados são obrigadas a destinar entre 2% e 5% das vagas a funcionários com esse perfil. Mas a mesma lei determina que quem tem deficiência intelectual e recebe pensão perca este direito ao começar a trabalhar. É uma situação de insegurança porque os portadores de síndrome de Down têm a saúde mais frágil – metade tem problemas cardíacos. O ex-jogador de futebol e atual deputado federal Romário (PSB-RJ), pai de uma criança com a síndrome, luta para ampliar os direitos de quem tem Down.
São atitudes como a da escola potiguar, porém, que dão uma colaboração gigantesca na luta contra o preconceito, pois desde cedo as crianças aprendem a conviver com a diversidade. Um aluno, por exemplo, perguntou a Débora por que ela falava “engraçado” e ela explicou que é um pouco diferente dos demais. “A gente conversa muito sobre inclusão nas aulas. A síndrome de Down é apenas uma característica minha, nada mais. Sei que minha história é um exemplo para eles”, afirma ela. Segundo a diretora Ângela Guerra Fonseca, um pai só descobriu que a professora é Down numa reunião ao conhecê-la. Mas não quis tirar o filho da escola porque, para o garoto, ela era apenas mais uma professora. “Débora já faz parte do nosso ambiente e aqui ninguém a vê como diferente, nem pais nem alunos”, afirma Ângela.  
RETIRADO DA REVISTA ISTO É: |  N° Edição:  2262 |  22.Mar.13 - 21:00 |  Atualizado em 22.Abr.13 - 11:28

sexta-feira, 19 de abril de 2013

As tendências tecnológicas

As tendências tecnológicas do ensino brasileiro para o próximo ano

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Utilização de games, celulares e tablets são as principais apostas.
Yahell Luci Lima Educação
A inserção de games e dispositivos móveis, como celulares e tablets, no ambiente escolar brasileiro deve acontecer de maneira mais ampla em até um ano. É o que aponta o relatório nacional da pesquisa Horizon Report 2012lançada em novembro e realizada pelo sistema Firjan em parceria com a News Media Consortium (NMC), comunidade internacional de especialistas em tecnologia educacional.
A pesquisa é uma das mais importantes na área de tecnologia e educação, e contou com o apoio de 30 especialistas para ser elaborada. Entre outras coisas, o estudo identificou que, no Brasil, as principais tendências tecnológicas a serem adotadas em breve nos processos de ensino e aprendizagem são os ambientes colaborativos, a aprendizagem baseada em jogos e a utilização de celulares e tablets.
Sendo assim, confira abaixo uma descrição de cada uma dessas tendências, bem como exemplos de utilização de cada uma delas:
Ambientes colaborativos

São espaços virtuais que facilitam o trabalho em grupo, independente do local onde os participantes estejam. Nesses ambientes, estudantes e professores podem trocar informações, experiências e compartilhar conhecimentos. Deste modo, é possível que pessoas que estejam em qualquer lugar do Brasil ou do mundo possam colaborar em projetos de interesse comum.
Os ambientes colaborativos de aprendizagem podem ser criados utilizando ferramentas gratuitas, como o Google Apps, wikis ou até mesmo redes sociais, indica o Horizon Report.
O estudo também apresenta alguns exemplos de ambientes colaborativos. Um deles é o Portal do Professor, ferramenta disponibilizada pelo Ministério da Educação (MEC) para facilitar a troca de experiências entre professores do ensino fundamental e médio. O ambiente ainda oferece sugestões de aulas, bem como recursos de áudio, vídeos, fotos, textos e mapas.
 Outra iniciativa é o First People’s Project, programa que conecta estudantes indígenas de cinco continentes, permitindo que eles compartilhem experiências culturais e apresentem tais experiências para uma audiência global. O vídeo abaixo (em inglês) mostra um pouco mais deste trabalho:


Aprendizagem baseada em jogos
De acordo com o estudo, os jogos têm provado sua eficiência como ferramenta de aprendizado, bem como suas contribuições para o desenvolvimento de habilidades como a colaboração, a comunicação, a solução de problemas e o pensamento crítico.
Os jogos podem ser utilizados para ensinar conceitos de forma envolvente e sua aplicação pelos professores pode se dar facilmente, uma vez que esta é uma atividade que os estudantes já costumam fazer fora do ambiente escolar.
Com relação à utilização desta ferramenta, duas iniciativas recentes ilustram como os jogos podem ser utilizados em sala de aula. A primeira delas é um game para o ensino de matemática que já está sendo utilizado por 7 mil alunos do sistema Sesi e de algumas escolas estaduais do Rio de Janeiro. De acordo com matéria publicada pelo Portal Porvir, tendo como pano de fundo desenhos em estilo japonês, o jogo propõe atividades lúdicas e é voltado para estudantes do ensino fundamental ao ensino médio.
Outro exemplo é um jogo online lançado recentemente pelo governo dos EUA para o ensino de inglês, o Trace Effects.
Utilização de Celulares
Os celulares, mais especificamente os smartphones, permitem ao usuário se conectar a internet de qualquer lugar. Por este motivo e também pela expansão da quantidade de pessoas que já possuem um aparelho como este, a utilização desta ferramenta no ambiente escolar tem se mostrado viável. De acordo com o Horizon Report, há 130 celulares para cada 100 habitantes no Brasil.
Além da conexão com a internet, os celulares também congregam outras ferramentas interessantes, como a geolocalização e recursos como vídeos e fotos.
Um projeto chamado Palma (Projeto de Alfabetização na Língua Materna), pode ser citado como um exemplo da utilização dos celulares na sala de aula. O Palma é um aplicativo criado para auxiliar na alfabetização de alunos da educação de jovens e adultos (EJA). O programa é feito em forma de jogo e utiliza sons, imagens e textos para facilitar o aprendizado dos estudantes.
Utilização de Tablets
A exemplo dos celulares, os tablets também podem ser um recurso atraente para se utilizar na educação porque são portáteis e possuem a possibilidade de conexão com a internet, além de dispor de recursos de áudio, vídeo e imagens.
Uma das possibilidades interessantes ao se trabalhar com os tablets, é a utilização de aplicativos para o ensino de diferentes disciplinas ou para a troca de conhecimentos. Alguns desses aplicativos que podem ser utilizados gratuitamente é o da Khan Academy, que disponibiliza as videoaulas do professor Salman Khan, o Math Practice Flash Cards, para o ensino de matemática, o TED, que disponibiliza palestras de especialistas em diferentes áreas, e o aplicativo oficial da NASA, que possui diversas imagens, vídeos, informações e notícias sobre as missões da companhia.
O cmais+ é o portal de conteúdo da Cultura e reúne os canais TV Cultura, UnivespTV, MultiCultura, TV Rá-Tim-Bum! e as rádios Cultura Brasil e Cultura FM.